| Índice do Artigo |
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'Não Peca' ou 'Não Vive Pecando'
"E, libertados do pecado, fostes feitos servos da justiça"
( Rm 6:18 )
Agora, analisemos as implicações teológicas da seguinte proposição: "Qualquer que permanece nele não peca" ( 1Jo 3:6 a) (Almeida Revista e Corrigida - VRC)
Para a nossa análise, vale destacar o exposto pelo Doutor Benedito de Paula Bittencourt em seu livro, O Novo Testamento: metodologia da pesquisa textual: "Duas verdades depõem contra a VRC; a) uma verdade gramatical, porque a ação verbal no tempo presente amartauei3p. sing. ind. pres.) é contínua, durativa, em progresso e só a expressão 'não vive pecando' reflete esse tipo de ação; quando afirmamos 'não peca', rejeitamos qualquer tipo de continuidade; b) uma verdade bíblica, porque não é possível conciliar o texto em questão com 1Jo 1.10. Enquanto aquele afirma que o crente 'não peca', este deixa claro que se alguém afirma tal coisa falta com a verdade e acusa Deus de mentiroso. A extrema imprecisão na tradução do tempo verbal resultou no desencontro entre os dois textos, que, por coincidência, são do mesmo autor, mas estão absolutamente irreconciliáveis. Ora, esse tipo de imprecisão, dentre outras coisas, serve de apoio a falsos ensinos" Bittencourt, B. P., O Novo Testamento: metodologia da pesquisa textual, 3ª Ed. rev. at. mp., Rj, editora JUERP, 1993, pág. 191.
No decorrer da análise será possível determinar se podemos aquiescer à exposição do proeminente doutor.
Como apresentaram argumentos em desfavor da 'antiga' Almeida Versão Revista e Corrigida, com base em questões gramaticais, vale salientar, antes de tudo, que é necessário ao leitor identificar no versículo qual a importância relativa que o apóstolo João atribuiu aos diferentes elementos da sentença (ênfase).
Ênfase: "Diz da importância relativa que o escritor atribui a diferentes termos na construção da proposição". Por exemplo, na sentença 'O fogo desceu furioso pela colina' a denotação da sentença é a asserção que há fogo queimando na colina e descendo. A 'ação' do fogo é contínua, durativa e progressiva.
A conotação é de aviso, pois o 'comportamento' do fogo é algo a ser temido pelo perigo ou risco que apresenta. A ênfase nesta sentença está no próprio fogo.
Se a asserção tivesse sido escrita: 'Pela colina o fogo desceu furioso', a ênfase estaria na colina, e a sentença perderia a denotação de continuidade e progressividade, visto que a colina é fixa. De igual modo, a frase com ênfase na colina não apresenta a conotação de aviso, pois qual risco pode oferecer uma colina que foi consumida por um fogo furioso?
Ora, através desta análise lógica, a deficiência que foi apontada na VRC não existe, pois não se trata de uma questão gramatical, e sim de ênfase. A ênfase na asserção: "Qualquer que permanece nele não peca", está em permanecer em Cristo, única forma de submissão ao jugo de Cristo, pois é próprio aos servos d'Ele (justiça) 'não pecar' ( Jo 8:34 ).
O que João procura destacar aos seus leitores é o mesmo que demonstrou Tiago: a obra perfeita da fé, que se resume na perseverança! (Tg 1:4 ).
Qual a denotação da frase: "Qualquer que permanece nele não peca"? Significa que, qualquer homem que permanece unido a Cristo pela fé não está sob o jugo do pecado. Ora, permanecer indica uma ação verbal contínua e durativa que tem como resultado: 'não peca'. Só é possível perdurar o resultado 'não peca' enquanto o homem permanecer em Cristo.
Observe que a condição 'não peca' depende da ação verbal do termo "permanece". Enquanto se permanece em Cristo, a condição 'não peca' perdura ('transita' a ação verbal estabelecendo um novo estado de coisas).
A conotação da asserção: "Qualquer que permanece nele não peca" é de esclarecimento, definição. O apóstolo João, neste verso, continua conscientizando os seus leitores acerca da nova condição daqueles que se tornaram filhos de Deus, para evitar que alguém os enganasse ( 1Jo 3:1 -6).
Quando a VRC traduz 'não peca', ela não rejeita a continuidade e duração que a ação verbal no tempo presente exige, pois a ênfase da asserção de João está em permanecer em Cristo.
A VR não é superior a VRC quando diz: "Todo o que permanece nele não vive pecando". Primeiro, porque o operador lógico de negação (não) suspende qualquer idéia de continuidade, duração ou progressão da condição 'vive'. É impossível aliar o advérbio 'não' a um verbo no gerúndio. O que a VR fez é inominável do ponto de vista gramatical, pois o 'não' é expressão taxativa, e não aceita continuidade (não... pecando?).
A única maneira de conciliar o advérbio 'não' a um verbo no gerúndio é na substituição de uma partícula 'se' quando ela é uma Conjunção subordinativa condicional, assumindo o valor de "se não": "Espero que ele venha, mas, não vindo (se não vier), pouco poderei fazer".
Se relacionarmos o advérbio 'não' com o verbo 'vive', o único resultado é a não existência. Quando não se vive é porque está morto, e a idéia de ação em andamento, ou de um processo verbal ainda não finalizado, que é a idéia proveniente do grego que se procurou evidenciar na VR utilizando o verbo 'pecar' no gerúndio é descabida.
Observe que o advérbio 'não' da VRC, combinado com o verbo 'permanece' é que dá 'vida' a ação verbal continua e durativa. O 'não' apresenta uma característica existencial daquele que permanece em Cristo. Como é uma característica do 'ser', ela é contínua e durativa.
A bíblia demonstra que o homem vive em pecado, e não que ele vive pecando. O homem vive em pecado, ou está morto para Deus no pecado porque esta condição é herdada de Adão. Isto não significa que o homem precisa cometer pecado constantemente para estar em pecado, antes, por estar em pecado, é que se peca.
Basta ao homem estar em Cristo, ou viver em Cristo, que deixará a condição de estar ou viver em pecado. Ora, aquele que está em Cristo, nova criatura é, e 'não peca', pois esta nova condição perdura naqueles que permanecem em Cristo.
Ninguém vive vinte e quatro horas por dia pecando (cometendo erros). O homem vive em pecado, e, por isso, peca, o que não significa que os homens vivem pecando. Enquanto dormem os homens vivem, porém, não dormem pecando. Um monge vive em pecado, porém, não vive pecando diuturnamente. Até mesmo os homens mais desregrados dormem, e a condição 'vive pecando' deixa de ser factível.
O Dr. Bittencourt disse que é impossível conciliar I João 3: 6a da VRC com I Jo 1: 10. Vejamos!
"E esta é a mensagem que dele ouvimos, e vos anunciamos: que Deus é luz, e não há nele trevas nenhumas (...) Se dissermos que não pecamos, fazemo-lo mentiroso, e a sua palavra não está em nós" ( 1Jo 1:5 -10).
"E bem sabeis que ele se manifestou para tirar os nossos pecados. E nele não há pecado. Todo aquele que permanece nele não peca. Todo que peca não o viu nem o conhece" ( 1Jo 3:5 -6).
Em I João 3: 5- 6 temos uma mensagem de conscientização dos cristãos acerca da obra de Cristo (tirar os nossos pecados), e da nova condição daqueles que n'Ele estão (Nele não há pecado).
Já em I João 1: 5- 10, apesar de o apóstolo João escrever a cristãos, o objetivo do texto é outro. Ele trouxe à lembrança dos cristãos qual foi a mensagem que João ouviu de Cristo e depois retransmitiu aos cristãos "E esta é a mensagem que dele ouvimos, e vos anunciamos..." ( 1Jo 1:5 ).
Qual era a condição do apóstolo João quando ouviu a mensagem de Jesus? Inferimos do texto que à época, João ainda não era cristão. Alguém pode querer contestar o fato de que João ainda não era cristão quando ouviu de Jesus a mensagem: 'Deus é luz'. Porém, não há como contestar que, quando o apóstolo retransmitiu a mensagem, os seus ouvintes ainda não eram cristãos.
Conclui-se que o público alvo da mensagem contida nos versos 5 a 10, do capítulo 1, da primeira carta do apóstolo João eram os descrentes, que após ouvir a mensagem, creram.
Percebe-se que o público alvo da mensagem difere com relação aos textos tidos como sendo 'irreconciliáveis'.
'Todo aquele que permanece nele' diz dos cristãos ( 1Jo 3:6 ª).
Agora, quem ouve a mensagem 'Deus é luz...' e contra argumenta: "Tenho comunhão com Ele, e anda em trevas (ou seja, não tem comunhão), é mentiroso ( 1Jo 1:6 ). Se diante da mensagem 'Deus é luz', o descrente disser que não tem pecado, está enfatuado em si mesmo (v. 8). Ou pior ainda, se alguém ouvir a mensagem 'Deus é luz' e alegar que não peca, como foi o caso dos judeus que criam em Cristo, acusa a Deus de mentiroso (v. 10).
O apóstolo Paulo na carta aos Romanos anuncia que “todos pecaram”, do mesmo modo, Jesus alerta que “todos precisam nascer de novo”, visto que os nascidos da carne são carnais, ou seja, estão em pecado. Não é diferente a mensagem do apóstolo João, quando demonstra que, qualquer que diz que não peca, ou seja, que não é servo do pecado, é mentiroso ( Jo 8:34 ).
Quantas vezes diante da mensagem de Cristo os religiosos O rejeitaram por considerarem que não eram pecadores? "Disse-lhes Jesus: Se fôsseis cegos, não teríeis pecado; mas como agora dizeis: Vemos; por isso o vosso pecado permanece" ( Jo 9:41); "Por isso vos disse que morrereis em vossos pecados, porque se não crerdes que eu sou, morrereis em vossos pecados" ( Jo 8:24 ); "Responderam-lhe: Somos descendência de Abraão, e nunca servimos a ninguém; como dizes tu: Sereis livres? Respondeu-lhes Jesus: Em verdade, em verdade vos digo que todo aquele que comete pecado é servo do pecado" ( Jo 8:33 -34); "Se eu não viera, nem lhes houvera falado, não teriam pecado, mas agora não têm desculpa do seu pecado" ( Jo 15:22 ); "Jesus respondeu: Não há doze horas no dia? Se alguém andar de dia, não tropeça, porque vê a luz deste mundo, mas, se andar de noite, tropeça, porque nele não há luz" ( Jo 11:9 -10).
Esta foi a mensagem de Cristo: "Deus é Luz", porém, os homens rejeitaram-na, alegando que eram filhos de Abraão.
Quando o cristão anuncia o evangelho é necessário demonstrar aos homens que 'Deus é Luz, e que nele não há trevas nenhumas’, ou seja, para estar em Deus é necessário ser nascido d’Ele. Mas, como demonstrar esta verdade? Ora, basta anunciar a Cristo, pois Ele é a Luz verdadeira que veio ao mundo ( Jo 1:9 ), que revelou o Pai ( Jo 1:18 ).
Resta que a VRC é superior a VR, e que não podemos aquiescer os argumentos apresentados pelo Dr. e Pr. Benedito.
Continua...








