| Índice do Artigo |
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| Os Nascidos de Deus não Pecam (Parte III) |
| A Palavra 'Pecado' |
| Qual a relação entre a lei e o pecado? |
| Qualquer que Permanece n'Ele não Peca |
| Todas as Páginas |
As definições e conceitos quase não são utilizados pelos escritores bíblicos, visto que, a escrita antiga privilegia a articulação do pensamento como processo de aprendizagem, diferente do ensino atual, que prioriza a transmisão do conhecimento através de definições e conceitos, o que compromete a capacidade de reciocínio do aprendiz.
Somente um homem não entrou pela porta larga, a porta que dá acesso ao caminho de perdição: Jesus, o último Adão. Somente Jesus não entrou pela porta larga, visto que Ele é a porta estreita. É por isso que ele utilizou a palavra 'muitos', e não 'todos'. Jesus Cristo-homem, gerado do Espírito de Deus não entrou pela porta que todos os homens entraram e continuam a entrar.
Quando Paulo diz: "Ele vos vivificou, estando vos mortos nos delitos (paraptoma) e pecados (hamartia)" ( Ef 2:1 ), 'paraptoma' diz do caminho que leva à morte, pelo qual todos os homens entraram ao nascerem de Adão. Todos estavam mortos por trilharem um caminho de morte. 'Em Adão' muitos entraram por uma porta larga que dá acesso a um caminho espaçoso, que conduz à perdição ( Mt 7:13 ).
Somente um homem não entrou pela porta larga, a porta que dá acesso ao caminho de perdição: Jesus, o último Adão. Somente Jesus não entrou pela porta larga, visto que Ele é a porta estreita. É por isso que ele utilizou a palavra 'muitos', e não 'todos'. Jesus Cristo-homem, gerado do Espírito de Deus não entrou pela porta que todos os homens entraram e continuam a entrar.
Após entrar pela porta larga (que é nascer segundo Adão), que dá acesso ao caminho que conduz à perdição, é impossível ao homem 'acertar o alvo'. Qualquer ato, ação, pensamento, qualidade, mérito, etc., daqueles que entraram pela porta larga é 'hamartia', pois todos eles estão fadados a fracassar. O erro (pecado) está no caminho que os conduz à perdição, e não em suas ações "Ele vos vivificou, estando vós mortos nos vossos delitos (paraptoma) e pecados (hamartia), nos quais andastes (peripateo) outrora, segundo (kata) o curso (aion) deste mundo (kosmos)..." ( Ef 2:1 -2).
A Palavra ‘Pecado’
A palavra hebraica 'chet' e termos cognatos têm o sentido de 'falta, omissão, erro no fim em vista, fracasso', e a palavra grega 'hamartia' e 'hamartêma' significam 'errar o alvo'. Como entender estas palavras quando utilizadas pelos apóstolos?
Ora, como a Escritura encerrou todos os homens nascidos de Adão (em Adão) debaixo do 'pecado' ( Rm 3:23 ), e por causa deste evento único não há quem faça o bem, nem se quer um ( Sl 14:3 ; Rm 3:12 ), perceba que, mesmo desejando fazer o bem, o produto das ações dos homens sob o jugo do pecado é o mal.
Invariavelmente os filhos de Adão 'erram o alvo, fracassam, comentem faltas, comentem erros em alcançar o fim em vista', a salvação, por causa da condição herdada: filhos da ira e da desobediência.
Grande parte da humanidade procura viver conforme um senso comum de justiça, procura praticar boas ações aos seus semelhantes, porém, o 'bem' que desejam fazer, não faz, pois vivem sob o jugo do pecado.
Quando Paulo alertou os judeus, que entendiam que eram melhores do que os gentios, ele utilizou a palavra 'hamartia' para demonstrar que todos os homens estão debaixo do pecado, independentemente das suas origens "Pois quê? Somos nós mais excelentes? De maneira nenhuma, pois já dantes demonstramos que, tanto judeus como gregos, todos estão debaixo do pecado" ( Rm 3:9 ).
Por todos estarem 'debaixo do pecado', isto significa que todos os homens se extraviaram e não são justos diante de Deus. Todos, tanto judeus quanto gentios igualmente não fazem o bem por causa da condição de sujeição ao pecado herdada de Adão. Todos 'erram o alvo'. Procuram fazer boas ações, porém, suas obras não são o 'bem' ( Rm 3:12 )! São denominadas trapos de imundície.
A palavra hebraica 'avon' ( Sl 51:2 , 5 e 9) é traduzida como 'perversão, deturpação ou tendência'. O significado mais comumente usado para a palavra 'avon' é ‘tendência’, quando ela deixa de designar um 'ato pecaminoso', para designar uma condição pecaminosa. Designa algo errado com o homem, e não com o que ele faz.
Quando Davi orou a Deus pedindo o perdão de 'seus pecados', o foco do seu pedido foi a sua condição de pecado, e não as suas ações. Como a condição de pecado reduz todas as ações do homem em 'mau', resta somente ser 'curado' de tal condição para poder realizar o 'bem' "Contra ti, contra ti somente pequei, e fiz o que é mau..." ( Sl 51:4 ).
Quando Davi reconheceu o seu pecado contra Deus, logo a seguir ele apontou a sua concepção como causa da sujeição ao pecado, ou seja, a origem do mau que atingiu toda a humanidade decorre do nascimento natural. Davi pecava por causa da condição de sujeição ao pecado, e não o contrario: pecava por fazer coisas ilícitas.
No hebraico há a palavra 'pesha' que indica transgressão de uma lei, ou revolta contra o legislador, rebelião, crime, etc. No grego, 'parabasis' transgressão, 'paraptoma' delito, 'anômia' iniqüidade, 'anômia' impiedade, etc.
Quando Davi reconhece o seu estado de rebelião contra Deus, ele não enumera os seus atos considerados errôneos pela sociedade como sendo a causa de sujeição ao pecado. Ora, todos os homens estão separados de Deus, e não são levadas em conta suas ações ou condutas perante a sociedade.
Uma prova da condição de separados de Deus está na lei, porque nela não se opera a graça, mas, a ira de Deus ( Rm 4:15 ).
As transgressões do salmista se avolumavam por causa da sua condição de pecado herdada de Adão ( Sl 51:3 e 5).
Davi compreendeu através das Escrituras que somente os renovos (plantas) que são plantados pelo Senhor, obras das mãos d’Ele (Cria em mim = bara), produzem frutos segundo a sua espécie: o bem ( Is 60:21 ; Mt 15:13 ). Se não for um dos renovos que o Pai plantou, as ações dos homens é o mau ( Sl 51:5 ). As suas obras não servem para vestir, pois são trapos de imundície ( Is 59:6 ).
Embora muitos religiosos busquem fazer boas ações e se estribem em suas realizações segundo a concepção humana de justiça, verdade, moral, leis, etc, Deus protesta contra todos eles, pois a 'retidão' que possuem não lhes aproveitarão "Eu exporei a tua retidão e as tuas obras, e elas não te aproveitarão" ( Is 57:12 ).
As ações errôneas dos homens que transgridem as leis e a moral humana também são comumente nomeadas de 'pecado', e muitas vezes as palavras gregas e hebraicas são utilizadas para designar estes desvios da moral e do comportamento humano.
A imoralidade, os vícios, tipos variados de violência, etc., são designados 'rêshã' no hebraico, e 'adikia' no grego.
Em Lucas 13: 27 Jesus demonstrou desconhecer quem eram algumas pessoas que se assentaram à sua presença para comer, e utilizou a palavra grega 'adikia' "Mas ele vos responderá: Digo-vos que não sei donde sois. Apartai-vos de mim, vós todos que praticais iniqüidades" ( Lc 13:27 ). De que tipo de violência Jesus os acusará? A concepção humana de violência deriva das guerras, porfias, dissensões, contendas, não tolerância para com o próximo, etc.
Sem esquecermos que a reprimenda de Jesus foi direcionada aos religiosos da época, homens de elevada moral, que eram considerados justos aos olhos dos homens por causa do comportamento 'impecável' ( Mt 23:28 ).
A violência deles estava em tentar ‘tomar’ o reino de Deus através de suas obras, que é o mesmo que ‘força’, ou 'violência', que a muito protestou o profeta Isaias "As suas teias não prestam para vestes; não se podem cobrir com as suas obras. As suas obras são obras de iniqüidade, obra de violência há nas suas mãos" ( Is 59:6 ).
Verifica-se que, por causa da iniqüidade, Jesus não aceitou as pessoas que alegaram ter se assentado à mesa com Ele, ou seja, por causa da violência de suas obras. Desta forma, a palavra grega 'adikia' deixa de contemplar o significado primário: 'violência', para indicar o tipo de obras que os homens tentam apresentar a Deus: obras de iniqüidade.
Ora, só é possível ao homem ver-se livre da iniqüidade através da ação direta de Deus. Qualquer elemento proveniente da concepção humana (moral, comportamento, religião, boas ações, etc.) que o homem lançar mão no intuito de livrar-se da condenação é tido como violência contra Deus, e, por isso, o Espírito diz: "Não por força nem por violência, mas sim pelo meu Espírito, diz o Senhor dos Exércitos" ( Zc 4:6 ; Pr 14:12 ; Is 59:6 ).
Os homens intentam alcançar a salvação por meio de suas obras (violência), ou seja, por meio da ‘força’, porém, somente Deus salva o homem.
Há várias outras palavras que faz referência ao pecado, como a palavra hebraica 'ãshãm' que indica culpa que exige sacrifício expiatório, ou seja, é necessário o "pagamento de um preço" para promover a ‘reconciliação’, ‘restauração’. Como já vimos, a dívida expressa na oração modelo também é considerado pecado 'õpheilèma' ( Mt 6:12 ).
O apóstolo Paulo ao escrever aos cristãos de Éfeso fala de dois tempos distintos: agora e outrora.
Os cristãos foram vivificados, ressuscitados e assentaram-se (descansaram) em Cristo por meio da fé (evangelho). Está é a condição daqueles que estão em Cristo ( Ef 1:13 ; Ef 2:4 -9).
Deus preparou de antemão as boas obras, para que os gerados segundo a sua natureza, os criados 'em Cristo' (bara) andassem por elas ( Ef 2:10 ). Este é o presente (agora) na vida dos cristãos ( Rm 3:26 )!
Ao falar do passado (outrora) dos cristãos, quando eram filhos da ira e da desobediência, Paulo utiliza as palavras 'paraptoma' e 'hamartia' para esclarecer a condição deles sem Cristo.
Quando Paulo diz: "Ele vos vivificou, estando vos mortos nos delitos (paraptoma) e pecados (hamartia)" ( Ef 2:1 ), 'paraptoma' diz do caminho que leva à morte, pelo qual todos os homens entraram ao nascerem de Adão. Todos estavam mortos por trilharem um caminho de morte. 'Em Adão' muitos entraram por uma porta larga que dá acesso a um caminho espaçoso, que conduz à perdição ( Mt 7:13 ).
Somente um homem não entrou pela porta larga, a porta que dá acesso ao caminho de perdição: Jesus, o último Adão. Somente Jesus não entrou pela porta larga, visto que Ele é a porta estreita. É por isso que ele utilizou a palavra 'muitos', e não 'todos'. Jesus Cristo-homem, gerado do Espírito de Deus não entrou pela porta que todos os homens entraram e continuam a entrar.
Após entrar pela porta larga (que é nascer segundo Adão), que dá acesso ao caminho que conduz à perdição, é impossível ao homem 'acertar o alvo'. Qualquer ato, ação, pensamento, qualidade, mérito, etc., daqueles que entraram pela porta larga é 'hamartia', pois todos eles estão fadados a fracassar. O erro (pecado) está no caminho que os conduz à perdição, e não em suas ações "Ele vos vivificou, estando vós mortos nos vossos delitos (paraptoma) e pecados (hamartia), nos quais andastes (peripateo) outrora, segundo (kata) o curso (aion) deste mundo (kosmos)..." ( Ef 2:1 -2).
Jesus disse: "Pois se vós, sendo maus, sabeis dar boas dádivas aos vossos filhos, quanto mais dará o Pai celestial o Espírito Santo àqueles que lho pedirem?" ( Lc 11:13 ). Saber ou fazer boas ações não é o bem diante de Deus, o bem está em ser gerado de Deus.
Qual a relação entre a lei e o pecado?
Adão, o primeiro homem, foi criado perfeito e colocado em um lugar perfeito. Em seguida foi lhe dado uma lei, a lei da liberdade: "De toda árvore do jardim comerás livremente, mas da árvore do conhecimento do bem e do mal, dela não comerás, pois no dia em que dela comeres, certamente morrerás" ( Gn 2:16 -17).
Deus concedeu ao homem plena liberdade ao permitir livre acesso a todas as árvores, pois de todas as árvores o homem podia comer livremente. Além da liberdade, Deus concedeu o conhecimento necessário para que o homem não atentasse contra a sua própria natureza: 'certamente morrerás'.
A primeira determinação divina ao homem veio em forma de ressalva: '..., mas da árvore do conhecimento (...), dela não comerás', e o motivo: ‘... certamente morrerás’. Porém, foi concedido ao homem a 'livre-vontade' de comer da árvore que quisesse.
Por que 'livre-vontade' e não 'livre-escolha'? Porque a escolha é delimitada por parâmetros sobre o que pode ser escolhido, e a vontade não. O homem tinha livre-vontade para escolher comer dentre todas as árvores, e também de não comer. Já a livre-escolha limita-se ao número de árvores disponíveis no jardim.
A livre-vontade vai além do que se oferece, ou possa ser alcançado. Exemplo: Embora não podendo voar, ao olhar os pássaros, a vontade de voar pode surgir no homem, mesmo não tendo poder para satisfazê-la. Esta questão é melhor analisada através da figura da escravidão.
Um escravo, embora não tivesse a opção de escolher a liberdade, pois dependia da vontade do seu senhor, ele possuía livre-vontade. Ninguém conseguiu submeter à livre-vontade de um homem através de um regime escravagista. Embora não pudesse ser livre, a vontade de um escravo, dentre muitas outras, era a de ser livre.
A primeira lei era perfeita, visto que, foi concedida em um ambiente perfeito, a um homem perfeito, expressava o cuidado do Criador para com a sua criatura e garantia ao homem o exercício da perfeita liberdade (toda árvore comerás livremente), com base em um conhecimento suficiente (certamente morrerás).
O homem transgrediu e morreu. Ele atentou contra a sua própria natureza e deixou de compartilhar da vida que há em Deus. O conceito de morte no Gênesis é proveniente de Deus, e não está atrelado ao conceito de morte pertinente aos homens. A morte proveniente da pena ‘certamente morrerás’ significa separação da vida que há em Deus, que é diferente da morte física, que logo adiante Deus fez referência: 'pois és pó, e ao pó tornarás' ( Gn 3:19 ).
Como conseqüência direta e imediata ao erro de Adão veio a morte (separação da vida que há em Deus), e a longo prazo, a morte física (voltar ao pó). Deus considera como 'morte' a separação (barreira) proveniente da queda de Adão, pois para ele vivem todos, tantos os que estão sobre a terra, e os que já desceram ao pó da terra ( Lc 20:38 ).
Ora, Adão foi julgado por causa da ofensa e condenado à morte ( Rm 5:18 ). Por causa da ofensa de Adão todos os homens foram submetidos a juízo, e foram condenados. Por causa da desobediência de Adão todos os homens foram feitos pecadores e destituídos da glória de Deus.
Basta ao homem nascer segundo a carne de Adão (porta larga), que pesa sobre ele uma condenação, sendo apenado com a morte (separado da vida que há em Deus).
O homem transgride alguma lei ao nascer? Que mau ou bem o homem faz ao nascer? Nenhum! Porém, a bíblia demonstra que todos pecaram em Adão ( 1Co 15:22 ). Se todos pecaram e foram destituídos da glória de Deus por terem nascido de Adão, segue-se que a lei não é a causa primária de condenação de ninguém.
Perceba que desde Adão até Moisés o pecado já era imputado, pois todos os homens desde Adão até a vinda da lei morriam. Ora, se o pecado não fosse imputado, jamais morreriam, pois a morte é o salário do pecado.
O pecado não ficou adormecido no homem até vir a lei. Que diremos de Abraão? Do que Abraão foi justificado se a sua época ainda não havia sido entregue a lei? Perceba que o pecado não dependia da lei para assalariar os homens.
Paulo aponta os gentios como sendo transgressores, mesmo sem lei ( Rm 2:12 ).
Quando os homens vêm ao mundo, eles entram através da 'porta larga' que é Adão, e todos nascem sob o jugo (escravidão) do pecado. O primeiro pai vendeu-se como (comparativo) escravo ao pecado, e todos os seus filhos também nascem em igual condição: pecadores. O ‘senhor’ pecado assalaria os seus escravos com a morte, como era o caso dos escravos: nada possuíam, e esperavam a morte como único pagamento pela vida de servidão.
Fica a pergunta: Qual o papel da lei?
Para compreendermos o objetivo da lei é necessário rever a história dos hebreus. Abraão creu em Deus é foi justificado pela fé, sem as obras da lei. Porém, por ter uma promessa acerca do seu Descendente que é Cristo, os seus descendentes segundo a carne passaram a considerar que eram salvos por causa da fé de Abraão ( Gn 22:18 ).
Tremendo engano, pois a fé de Abraão não os livrava da condição de filhos de Adão. A fé de Abraão trouxe justificação somente para ele, condição que não se estendeu aos seus filhos na carne (descendência).
A lei foi entregue por Deus a Moisés para encerrar todos os homens debaixo do pecado, conscientizando a descendência proveniente da carne de Abraão que eles precisavam circuncidar o coração para tornarem-se filhos de Deus. A lei desempenhou o papel de 'aio' para conduzir os judeus a Cristo, o Descendente, em quem todas as famílias da terra seriam benditas, e não só a descendência de Abraão.
Geralmente quando o apóstolo Paulo argumenta que tanto os judeus quanto os gentios tem a mesma condição diante de Deus, ele demonstra através da lei esta igualdade na sujeição ao pecado que é pertinente tanto aos gentios quanto aos judeus "Pois quê? Somos nós mais excelentes? De maneira nenhuma, pois já dantes demonstramos que, tanto judeus como gregos, todos estão debaixo do pecado. Como está escrito: não há um justo, nem um sequer" ( Rm 3:9 -10); "Mas a Escritura encerrou tudo debaixo do pecado, para que a promessa pela fé em Jesus Cristo fosse dada aos que crêem. Mas, antes que a fé viesse, estávamos guardados debaixo da lei..." ( Gl 3:22 -23).
Observe que o público alvo da mensagem de Paulo no capítulo 3 da carta aos Romanos são os judeus convertidos ao cristianismo "Pois quê? Somos nós (judeus) melhores (...) Ora, nós (judeus) sabemos..." ( Rm 3:9 e 19).
Quando o apóstolo Paulo diz no verso 20 que 'pela lei vem o conhecimento do pecado' ( Rm 3:20 ), ele não está demonstrando que só através da lei os homens reconhecem a sua condição. Antes, ele está demonstrando que, para os judeus que compreendiam que já não eram pecadores por serem descendentes de Abraão, a lei tinha a função de demonstrar que todos (judeus e gentios) eram pecadores (conhecimento do pecado).
Através da lei de Moisés era possível àqueles que se consideravam melhores que os gentios conhecerem que ainda eram pecadores, pois a justificação somente é possível através do Descendente, e não através do patriarca Abraão. Desta forma a lei serviu de 'aio', para tirar o foco de Abraão, conduzindo os judeus a Cristo.
Quando se lê: 'Por isso ninguém será justificado diante dele pelas obras da lei...', Paulo está fazendo referência aos judeus. Somente os judeus tinham um código. Além de ser impossível a alguém justificar-se através da lei, por ela a boca dos judeus era fechada, para que tanto judeus quanto gentios reconheçam a condição de condenável diante de Deus.
Diante da lei, a real condição dos judeus manifesta-se: "Porque todos os que sem lei pecaram, sem lei também perecerão; e todos os que sob a lei pecaram, pela lei serão julgados" ( Rm 2:12 ). Os que não tiveram uma lei estavam em melhores condições do que os que não tiveram? Não! Pois, mesmo sem lei os gentios pecaram e pereceram. Observe que a lei de Moisés não é a causa e nem 'desperta' o pecado.
Os judeus, por sua vez, mesmo sob a lei pecaram, e pela lei são redargüidos por ela como culpados do mesmo modo que os gentios. Por quê? Porque a lei opera a ira, visto que somente os que a praticam cabalmente hão de ser justificados "Porque os que ouvem a lei não são justos diante de Deus, mas os que praticam a lei hão de ser justificados" ( Rm 2:13 ).
A lei foi entregue aos descendentes de Abraão para demonstrar-lhes que também eram pecadores (conhecimento do pecado). Deste modo, a lei serviu de 'aio' para levá-los ao Descendente.
A lei e o evangelho possuem uma semelhança entre si, pois do mesmo modo que perante a lei não há acepção de pessoas, visto que todos pecaram, a fé (evangelho) também não faz acepção, pois todos (judeus e gentios) são justificados por ela (Romanos 3: 31); "Por isso nenhuma carne será justificada diante dele pelas obras da lei, porque pela lei vem o conhecimento do pecado" ( Rm 3:20 ).
Como Deus justificou pela fé a Abraão, e Deus não faz acepção de pessoas, somente pela fé o homem é justificado do pecado. O que demonstra que o pecado entrou no mundo antes de ser outorgada a lei de Moisés e ele passou a ser imputado, visto que as Escrituras dão testemunho de que muitos foram justificados pela fé em Deus sem as obras da lei.
Esta colocação paulina confronta diretamente o pensamento dos judaizantes que entendiam que o pecado só é imputado por causa da lei. Porém, o apóstolo Paulo demonstrou que antes da lei o pecado estava no mundo ( Rm 5:13 ).
Deste modo, inferimos que a parte ‘b’ do versículo 13, de Romanos 5 é uma pergunta do apóstolo dos gentios, em lugar de uma afirmação, comumente apresentada nas traduções bíblicas. Em lugar da asserção afirmativa: “Mas, não havendo lei, o pecado não é imputado”, deveríamos ler: “Mas, não é o pecado imputado, não havendo lei?" ( Rm 5:13 ).
É próprio a arte do bem falar (a retórica) fazer uso de perguntas durante a exposição para induzir o 'auditório' à resposta desejada pelo interlocutor. Como sabemos que o apóstolo Paulo era ‘versado’ na arte do bem falar, condiz mais com a estrutura do texto uma pergunta retórica do que uma afirmação.
A pergunta do apóstolo faz referência a algum dito popular utilizado pelos judaizantes na tentativa de enfatizar a utilidade da lei “(Porque, até à vinda da lei, o pecado também estava no mundo. Mas (porventura) não é o pecado imputado, não havendo lei?” (Rm 5:13 ) Bíblia Literal do Texto Tradicional - LTT. Porém, tal pensamento dos judaizantes não encontra respaldo nas escrituras, e nem nas argumentações de Paulo, visto que logo a seguir ele declara: “No entanto, a morte reinou desde Adão até Moisés...” ( Rm 5:14 ).
O apóstolo Paulo demonstrou que o pecado entrou no mundo por causa de Adão ( Rm 5:12 ), e não porque os homens transgridem a lei interna escrita em seus corações ou em suas consciências. Os homens são transgressores sem causa, conforme atesta o salmista Davi ( Sl 25:3 ).
A questão da transgressão vai além da idéia de que alguns homens (judeus) são pecadores porque desobedecem ao código de leis dado por Moisés. Da mesma forma não podemos pensar que os gentios são pecadores porque desobedecem à lei interna e à consciência. Todos os homens já foram julgados e condenados em Adão, ou seja, a condenação não depende de códigos, de leis internas e da consciência.
Isto porque quem entra pela porta larga (nasce de Adão) trilha o caminho largo de perdição, sem qualquer relação com as obras da lei escrita nos corações ou sob o crivo da consciência. Ora, de que adianta a aprovação e a reprovação da consciência, se ela não pode justificar o homem?
Perceba que o pecado como senhor exerce domínio sobre o servo, independente do seu grau de conhecimento. Se um servo sabe a vontade do seu senhor e não anda conforme a sua vontade, será castigado. Mas, se o servo desconhecer a vontade do seu senhor, também será castigado, embora o senhor possa aliviar o castigo.
Este princípio aplica-se também aos servos da justiça, conforme se lê em ( Lc 12:45 -48).
É escusa a colocação de Rudolf Bultmann ao alegar que Paulo abordou a questão do pecado decorrente de Adão sob influência do mito gnóstico "Não há dúvida de que aqui Paulo descreve sob a influência do mito gnóstico a maldição que pesa sobre a humanidade adâmica" Rudolf Bultmann, Teologia do Novo Testamento, tradução Ilson Kayser, Ed. Teológica, SP, 2004, pág. 312.
Ora, sabemos que o mito gnóstico não é conforme a verdade do evangelho. É bem mais provável que eles tenham sofrido influências do evangelho do que a mensagem de Paulo ter sido influenciada pelos gnósticos.
O evangelho demonstra que os nascidos de Adão estão sob condenação proveniente do juízo estabelecido através da desobediência do primeiro pai da humanidade ( Rm 5:18 ). Desta forma, temos que o juízo foi estabelecido no início da história da humanidade, e não no final dos tempos (séculos). Este é o grande diferencial da mensagem do evangelho, pois a necessidade de salvação é para o dia que se chama hoje, visto que a condenação se deu no passado.
As religiões apontam um julgamento futuro, quando os homens apresentarão as suas boas ações na esperança de serem salvos. O evangelho é diferente, pois demonstra a necessidade de salvação 'hoje', pois o julgamento futuro será somente de obras, as 'obras más' daqueles que já estão condenados em Adão.
Diante do Grande Trono Branco comparecerão somente aqueles que já estão perdidos para sempre em decorrência do juízo estabelecido em Adão. As obras dos homens não lhes aproveitarão no julgamento 'final', pois não foram feitas em Deus.
Paulo não foi influenciado e não 'deslizou' para dentro das idéias gnósticas, porque a abordagem do evangelho não guarda qualquer relação com tais idéias.
Ao descrever o Verbo de Deus (Cristo), João demonstrou que em Cristo está a Vida, e que a Vida é a luz dos homens "Nele estava a vida, e a vida era a luz dos homens" ( Jo 1:4 ). Ou seja, a luz pela qual os homens devem guiar-se é proveniente da Vida que Cristo concede aos homens "Falou-lhes, pois, Jesus outra vez, dizendo: Eu sou a luz do mundo; quem me segue não andará em trevas, mas terá a luz da vida" ( Jo 8:12 ).
Ora, se em Cristo está a vida, por quem entrou a morte?
O apóstolo Paulo diz: "Portanto, como por um homem entrou o pecado no mundo, e pelo pecado a morte, assim também a morte passou a todos os homens por isso que todos pecaram" ( Rm 5:12 ). Paulo demonstra que a morte é condição derivada do pecado de um único homem, Adão.
Paulo chama os seus leitores ao raciocínio quando introduz a conjunção: "Portanto,..." ou "Pelo que,..." (logo, conseqüentemente, por conseguinte). Ele queria que os seus leitores percebessem através de um elemento verificável, a morte natural, que "todos pecaram", reafirmando o seu posicionamento anterior, ele introduz uma nova argumentação "... pois todos pecaram e destituídos estão da glória de Deus" ( Rm 3:23 ).
Através da asserção: "... por um homem entrou o pecado no mundo, e pelo pecado a morte', que tem a seguinte denotação "É certo que o pecado entrou no mundo por causa de um homem (Adão), e pelo pecado dele a separação entre Deus e os homens", Paulo queria que entendessem o fato de que todos os homens foram destituídos da glória de Deus por causa da transgressão de Adão.
Ora, se em conseqüência do pecado de um homem entrou a morte no mundo, e todos os homens morreram, é certo que todos pecaram em Adão, sendo que a origem (judeus e gentios) e as ações (boas e más) não são elementos que determinam a condição de pecado dos homens.
Além de reafirmar que o pecado é maldição pertinente a geração Adâmica neste verso: "Pois como pela desobediência de um só homem, muitos foram feitos pecadores..." ( Rm 5:19 ), ele estabelece um comparativo entre Adão e Cristo através da conjunção 'pois como'. Através da desobediência de um, muitos foram feitos pecadores, e através da obediência de Cristo, muitos são feitos justos.
Longe de nós as ideias gnósticas que indicavam algo anterior ao pecado de Adão como sua causa, ou a matéria da qual Adão era feito, ou as doutrinas rabínicas sobre o impulso mau.
Para os que queriam justificar-se através das obras da lei, Paulo demonstra que muito antes da lei o pecado já estava no mundo, visto que, antes mesmo de Moisés existir, a morte já havia estabelecido o seu reino por causa do pecado.
É certo que todos os homens pecaram em Adão porque todos igualmente morrem. É certo que antes da lei já estava o pecado no mundo porque os homens desde Adão até Moisés igualmente morreram. Perceba que a frase introduzida pela conjunção 'Mas,...' exprime oposição a asserção anterior e posterior.
Paulo demonstra que até a vinda da lei o pecado estava no mundo, porém, alguém poderia contra-argumentar que o pecado só é imputado se houver lei. Mas, não é assim, pois o que se observa é que o pecado era imputado aos homens desde Adão até Moisés, uma vez que todos os homens estavam separados de Deus. O fato de os homens morrerem desde Adão até Moisés demonstra que o pecado estava sendo imputado aos homens, mesmo sem a presença da lei mosaica.
Ora, e como podiam contra-argumentar? Perceba que a frase: "Mas, não havendo lei, o pecado não é imputado..."!?, reproduz o pensamento dos judaizantes à época, de que o pecado só é imputado à vista da lei.
A universalidade do pecado manifesta-se no jugo (domínio) sobre todos os homens nascidos de Adão, sem exceção "...todos pecaram..." ( Rm 3:23 ), e "Mas a Escritura encerrou tudo debaixo do pecado..." ( Gl 3:22 ).
Tanto os que crêem em Cristo e os que não crêem andam na carne, ou seja, possuem um corpo carnal, físico. Porém, o diferencial está em viver segundo a carne e viver segundo o Espírito.
Olhando para o que é aparente, tanto os homens ímpios quanto os justos andam na carne. Os justos embora possuam um corpo carnal, contudo vivem segundo o Espírito e andam segundo o Espírito "Rogo-vos, pois, que, quando estiver presente, não me veja obrigado a usar com confiança da ousadia que espero ter com alguns, que nos julgam, como se andássemos segundo a carne. Porque, andando na carne, não militamos segundo a carne" ( 2Co 10:2 -3). O apóstolo demonstra que ter um corpo físico, constituído de carne e sangue não é o mesmo que viver na carne. Os ímpios também andam na carne, porém, vivem segundo a carne e militam segundo a carne.
Olhando para o que não é aparente, ou seja, considerar o que permanecerá para sempre, os ímpios são criados a partir do nascimento segundo Adão, vivem sob condenação, seguem um caminho de perdição e receberão justa retribuição conforme suas obras quando comparecerem perante o Grande Trono Branco. Os justos são criados em Cristo Jesus (último Adão) por meio do poder de Deus (evangelho), a partir do momento que homens nascidos de Adão crêem na mensagem do evangelho. Para os regenerados não há nenhuma condenação, pois receberão justa retribuição de suas obras no Tribunal de Cristo.
Qualquer que permanece nele não peca
"E bem sabeis que ele se manifestou para tirar os nossos pecados; e nele não há pecado"
( 1Jo 3:5 )
Considerando que:
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O homem natural não compreende as coisas de Deus, pois lhes aparenta ser loucura; não compreendem porque elas são espirituais e se discernem espiritualmente;
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A mensagem de Cristo é celestial, e a idéia que ela apresenta deve ser analisada e comparada com as Escrituras, ou seja, comparando ‘coisas espirituais com espirituais’;
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Os homens gerados segundo Adão são os filhos deste mundo;
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Os filhos da Luz são aqueles gerados de novo segundo a palavra da verdade;
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Elementos próprios à lógica podem ser utilizados como ferramenta de interpretação de texto;
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A versão Almeida Revista e Corrigida (VRC) é superior a Almeida Revisada (VR) quando apresenta a asserção: "Qualquer que permanece nele não peca" ( 1Jo 3:6 a);
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Não há conflito entre a asserção de 1Jo 3:6 e 1Jo 1:10, quando se leva em conta o público alvo da mensagem e o tempo em que a mensagem foi transmitida;
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O sentido da palavra grega ‘hamartia’ quando utilizada pelos apóstolos ganha nova conotação;
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O conceito de pecado: "...tudo o que não é proveniente- de- dentro- de fé é pecado" ( Rm 14:23 ), que foi apresentado pelo apóstolo Paulo;
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A condição ‘em Pecado’;
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O uso do dativo preposicionado;
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Interpretação do Salmo 51;
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A importância das figuras quando da interpretação bíblica;
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As palavras gregas e hebraicas traduzidas por pecado;
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A relação entre a lei e o pecado.
Reunimos acima elementos para compreender a asserção: “Qualquer que permanece nele não peca” ( Jo 3:6 ).
O apóstolo João apresenta três asserções neste sentido:
"Qualquer que permanece nele não peca; qualquer que peca não o viu nem o conheceu" ( 1Jo 3:6 )
"Qualquer que é nascido de Deus não comete pecado; porque a sua semente permanece nele; e não pode pecar, porque é nascido de Deus" ( 1Jo 3:9 )
"Sabemos que todo aquele que é nascido de Deus não peca; mas o que de Deus é gerado conserva-se a si mesmo, e o maligno não lhe toca" ( 1Jo 5:18 )
Estas três asserções se complementam, visto que ‘qualquer que permanece em Cristo’ é porque ‘nasceu de Deus’. Ora, qualquer que permanece em Cristo (nascido de Deus) não peca, ou melhor, não comete pecado.
Como já demonstramos anteriormente, a ênfase da asserção do apóstolo João refere-se a algo pertinente à natureza do novo ser gerado de Deus. O advérbio de negação ‘não’ (operador lógico), aponta uma característica contínua e durativa pertinente àqueles que permanecem em Cristo.
Para falar da nova condição daqueles que são nascidos de Deus, o apóstolo João lança mão em suas premissas de um recurso semelhante ao que é utilizado na poesia hebraica (PARALELISMO), caracterizado principalmente pela repetição de idéias. Através deste recurso, uma idéia abordada é novamente afirmada logo em seguida, porém, com palavras diferentes, de modo que as asserções apresentam idéias equivalentes.
Como estamos analisando na primeira parte dos versículos, três asserções (afirmações) equivalentes ( 1Jo 3:6 ; 1Jo 3:9 ; 1Jo 5:18 ), e todos apresentam asserções na segunda parte, podemos utilizar alguns princípios da lógica. Dentre eles destacamos:
a) Princípio da identidade - se qualquer proposição é verdadeira, então, ela é verdadeira;
b) Princípio de não-contradição - nenhuma proposição pode ser verdadeira e falsa;
c) Princípio do terceiro excluído - uma proposição ou é verdadeira ou é falsa.
Conforme escreveu o apóstolo João, sabemos que: "Qualquer que permanece nele não peca”, proposição simples declarativa de valor lógico ‘verdadeiro’, conseqüentemente não é falsa, visto que qualquer proposição jamais assumirá dois valores lógicos simultaneamente: verdadeiro e falso.
Com base nestes princípios pertinentes à lógica, temos a asserção: “Qualquer que permanece nele não peca”, equivalente à asserção: “Qualquer que peca não o viu nem o conheceu” ( 1Jo 3:6 ).
Como a maioria dos escritores das cartas contidas no Novo Testamento construiram textos argumentativos, invariavelmente foram levados a utilizarem elementos pertinentes à lógica na defesa de suas propostas. A exposição e a defesa do evangelho são campos ferteis de argumentações, que geralmente se expressam em asserções e proposições.
As definições e conceitos quase não são utilizados pelos escritores bíblicos, visto que, a escrita antiga privilegia a articulação do pensamento como processo de aprendizagem, diferente do ensino atual, que prioriza a transmisão do conhecimento através de definições e conceitos, o que compromete a capacidade de reciocínio do aprendiz.
O interprete da bíblia precisa conhecer os princípios que informam a lógica e a arte do bem falar (retórica), visto que este conhecimento floreceu à época dos apóstolos devido a cultura grecoromana.
Dada uma proposição qualquer, simples, declarativa e de valor lógico verdadeiro, se inserirmos o operador lógico de negação (não), formaremos uma nova proposição simples, declarativa e de valor lógico falso. A reciproca também é verdadeira. Ex:
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“Qualquer que permanece nele não peca” - (verdadeiro)
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“Qualquer que não permanece nele peca” – (verdadeiro)
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“Qualquer que permanece nele peca” – (falso)
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“Qualquer que não permanece nele não peca” – (falso)
Através do operador lógico de negação tornou-se possível construirmos quatro proposições, duas de valores verdadeiro e duas de valores falsos.
O apóstolo João ao escrever cria ‘paraleleismos’ através das relações existentes nas proposições. Ele geralmente cria duas proposições equivalentes para apresentar uma única ideia. Vejamos:
“Qualquer que permanece nele não peca”
“Qualquer que peca não o viu nem o conheceu”
Se invertermos alguns elementos da primeira proposição, temos o seguinte:
“Qualquer que não peca permanece nele”
“Qualquer que peca não o viu nem o conheceu”
Na asserção “Qualquer que permanece nele não peca”, a ênfase do apóstolo João repousa sobre o permanecer em Cristo, o que dá continuidade e duração a ação verbal ‘não peca’, o que é contínuo e durativoamartauei 3p. sing. ind. pres.). Quando invertemos os elementos da asserção para “Qualquer que não peca permanece nele”, a ênfase desloca-se da palavra ‘permanece’ para a negativa do verbo pecar (não peca).
O estado das coisas que a sentença apresenta como verdadeiro (denotação) continua o mesmo, porém, a ideia que o escritor expressou (conotação) sofre variação, visto que a ênfase que o escritor atribuiu aos diferentes elementos da sentença modifica-se.
Devemos ter em mente que ‘permancer em Cristo’ implica em não pecar. Ora, a condição ‘não peca’ só é possível àqueles que estão, ou seja, que permanecem em Cristo, verdade esta que o apóstolo João procurou enfatizar. Quando deslocamos a ênfase para as palavras ‘não peca’, acabamos por criar uma idéia espúria, visto que teremos uma condição a ser satisfeita (não peca) para que o homem permaneça em Cristo.
Ciente destas possíveis variações de ênfase e conotação, o apóstolo João apresentou a segunda asserção equivalente à primeira tendo o cuidado de preservar os três significados dos componentes das asserções: a ênfase, a denotação e a conotação.
“Qualquer que permanece nele não peca. Qualquer que peca não o viu nem o conheceu”
Permanecer em Cristo resulta em não pecar, porém, qualquer que peca é porque não viu e nem conheceu a Cristo. Isto indica que, quem viu e conheceu a Cristo, ou antes, foi conhecido d’Ele, permance n’Ele.
Podemos construir outras asserções equivalentes tendo o cuidado de não alterar o valor relativo que o escritor conferiu aos diferentes elementos das asserções, e para isso basta mudarmos de lugar o operador lógico de negação na asserção:
“Qualquer que não permanece nele peca. Qualquer que peca não o viu nem o conheceu”, ou;
“Qualquer que permanece nele não peca. Qualquer que não peca o viu e o conheceu”
Além da possibilidade de se criar novas proposições através dos operadores lógicos, há outro recurso, que é construir através das designações (nomes) e proposições uma nova asserção.
Tal qual a linguagem corrente, a linguagem lógica é construida a partir de designações e proposições. Um determinado ‘ente’ pode ser designado através de muitas formas distintas. Por exemplo: “Paris”, “cidade luz” e “capital da França” são três designações distintas para o mesmo ente.
Se dissermos que “Lisboa” é a “capital da França”, temos uma proposição simples de valor lógico ‘falso’. Porém, se dissermos que “A cidade luz é Paris” ou que “A cidade luz é a capital da França”, temos duas proposições simples de valor lógico ‘verdadeiro’ e ‘equivalente’.
Quando lemos as cartas de João é necessário identificarmos quais designações referem-se ao mesmo ente, para podermos compreender o processo de construção das preposições e quais as relações que existe entre elas.
Observe as seguintes proposições:
“Qualquer que permanece nele não peca” ( 1Jo 3:6 );
“Qualquer que peca não o viu nem o conheceu” ( 1Jo 3:6 );
“Qualquer que é nascido de Deus não comete pecado; porque a semente de Deus permanece nele” ( 1Jo 3:9 );
“...e, não pode pecar porque é nascido de Deus” (1Jo 3:9 );
“Sabemos que todo aquele que é nascido de Deus não peca” ( 1Jo 5:18 );
“E nisto sabemos que o conhecemos: se guardarmos os seus mandamento” ( 1Jo 2:3 );
“Este mandamento antigo é a palavra que ouvistes” ( 1Jo 2:7 ).
“Ora, o seu mandamento é este, que creiamos no nome do seu Filho Jesus Cristo...” ( 1Jo 3:23 );
“E aquele que guarda os seus mandamentos permanece em Deus, e Deus nele” ( 1Jo 3:24 ).
Destacamos nove proposições e todas estão intimamente ligadas.
As preposições ‘g’, ‘h’ e ‘i’ apresentam três designações que referem-se ao mesmo ente: ‘Este mandamento’ ou ‘o seu mandamento’ é o mesmo que ‘a palavra que ouvistes’, ou ‘que creiamos no nome do seu Filho Jesus Cristo’.
Portanto, se substituirmos a parte ‘a’ da proposição ‘i’ pelas designações identificadas anteriormente, teremos outras proposições, porém, todas expressando a mesma idéia da proposição inicial. Exemplo: “Ora, o seu mandamento (‘a palavra que ouvistes’, ou ‘este mandamento antigo’) é este, que creiamos no nome do seu Filho Jesus Cristo”.
Através destas substituições podemos analisar as outras preposições, visto que a proposição ‘i’ trata do mesmo assunto da preposição ‘a’. Como sabemos, o mandamento de Deus é específico: “...que creiamos no nomem do seu Filho Jesus Cristo”, ou seja, ‘este é o mandamento antigo’.
Deste modo conclui-se que qualquer que crê no nome de Jesus (que guarda o seu mandamento 1Jo 3:23 ), permanece em Deus, e Deus nele ( 1Jo 3:24 ).
“Qualquer que permanece nele não peca” ( 1Jo 3:6 );
“E aquele que guarda os seus mandamentos permanece em Deus, e Deus nele” ( 1Jo 3:24 ).
Através das designações e dos entes pertinentes às proposições fica fácil perceber que, qualquer que crê em Cristo permanece em Deus, e Deus nele, o que leva a concluir que ‘aquele que guarda os seus mandamentos’ não peca.
Trocando os elementos das proposições ‘a’ e ‘h’, surgue uma nova proposição que expressa a mesma idéia da proposição inicial:
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“E aquele que guarda os seus mandamentos... |
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...não peca” |
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“Qualquer que permanece em Deus, e Deus nele... |
Conclui-se que guardar os mandamento de Deus equivale a confessar, crer que Jesus é o Filho de Deus.
Estudamos as relações nas proposições que ‘criamos’ acima, porém, observe as mesmas relações nas proposições registradas pelo apóstolo João:
“E aquele que guarda os seus mandamentos permanence em Deus, e Deus nele” ( 1Jo 3:24 );
“Todo aquele que confessar que Jesus é o Filho de Deus, Deus está nele, e ele em Deus” ( 1Jo 4:15 ).
O apóstolo João em uma de suas raras ‘definições’ demonstrou que o mandamento de Deus é crer no nome de seu Filho Jesus Cristo ( 1Jo 3:23 ), e os dois entes utilizados na definição foram desmembrados para criar as duas proposições acima.
‘aquele que guarda os seus mandamentos’ ( 1Jo 3:24 )
‘aquele que confesar que Jesus é o Filho de Deus’ ( 1Jo 4:15 )
a + b = ( 1 Jo 3:23 )
Do mesmo modo podemos estabelecer a seguinte relação: ‘permanecer em Deus’ é o mesmo que ‘estar nele’. Vamos a uma nova relação entre os versículos:
‘Aquele que crê no nome do seu Filho Jesus Cristo’ ( 1Jo 3:23 ), ou ‘aquele que guarda os seus mandamentos’ ( 1Jo 3:24 ) é aquele que ‘conheceu’ a Deus “E nisto sabemos que o conhecemos: se guardarmos os seus mandamento” ( 1Jo 2:3 ).
O que significa ‘conhecer’ a Deus? ( 1Jo 2:3 ) Como ‘ver’ e ‘conhecer’ a Deus? ( 1Jo 3:6 )
Ora, para ‘ver’ e ‘conhecer’ a Deus basta guardar os seus mandamentos, que é: crê no nome do seu Filho Jesus Cristo.
Mas, o que significa ‘conhecer’ a Deus? Conhecer a Deus é estar e permanecer n’Ele. A palavra ‘conhecer’ ganha nova conotação, visto que ‘conhecer’ diz de ‘comunhão íntima’, ‘estar ligado intimamente a’, ‘permanecer’, ‘estar’.
Quando o homem une-se a sua mulher diz-se que ‘conheceu’ o homem a mulher, ou seja, temos a palavra ‘conhecer’ designando uma comunhão íntima. Quando o apóstolo João utilizou a palavra ‘conhecer’ para descrever a relação entre Deus e os que crêem, utilizou-a para demostrar a comunhão íntima que se estabeleceu entre os homem e Deus.
“E aquele que guarda os seus mandamentos permanence em Deus, e Deus nele” ( 1Jo 3:24 )
“Todo aquele que confessar que Jesus é o Filho de Deus, Deus está nele, e ele em Deus” ( 1Jo 4:15 ).
“E nisto sabemos que o conhecemos: se guardarmos os seus mandamentos” ( 1Jo 2:3 ).
‘Permanecer’, ‘estar’ e ‘conhecer’ são entes equivalentes. Se o homem crê em Cristo, ele passou a ‘conhecer’, ‘estar’ e ‘permanece’ em Deus. É impossível estar em Deus sem conhece-Lo. É impossível conhece-Lo sem permanecer n’Ele.
Voltamos a preposição inicial: “Qualquer que permanece nele não peca” ( 1Jo 3:6 ).
Antes de prosseguirmos, precisamos verificar as relações existentes em todos os versículos que afirmam que ‘não peca’ qualquer que ‘permanece’ em Deus.
Ora, ‘qualquer que permanece em Deus (n’Ele) é porque ‘O viu’ e ‘O conheceu’. Qualquer que O ‘viu’ e O ‘conheceu’ é porque é ‘nascido de Deus’. Qualquer que é nascido de Deus é porque guarda os seus mandamentos, ou seja, ‘a palavra que ouviu’, ou o ‘mandamento antigo’.
Concluimos que: qualquer que ‘permanece’, ‘viu’, ‘conheceu’, 'nasceu’, ‘foi gerado’, ‘ouviu a palavra’, ‘guardou o mandamento’, ‘confessou que Jesus é o Filho’, ’creu no enviado de Deus’ não peca ( 1Jo 3:6 ; 1Jo 3:9 ; 1Jo 5:18 ).
Todos as designações relacionadas acima fazem referência a um mesmo ente, o que nos leva a seguinte conclusão: apesar das diferentes designações as asserções apresentadas pelo apóstolo João expressam a mesma ideia.
Com relação a ênfase (a importância relativa que o escritor atribui a diferentes elementos na sentença), é necessário um cuidado maior quando se analisa as designações e os entes existente nas preposições. Observe:
“Qualquer que permanece nele não peca” ( 1Jo 3:6 ).
O apóstolo João procurou demonstrar (conotação) que o homem ‘não peca’ porque permanece em Deus, e não o contrário: o homem ‘não peca’ o que o levaria a ‘permanecer’ em Deus.
Agora, verifique o seguinte versículo quanto a ênfase (a importância relativa que o escritor atribui a diferentes elementos na sentença) e a conotação (sentimentos, ideia ou emoção evocados ao leitor pela sentença):
“Se sabeis que Ele é Justo, sabeis que todo aquele que pratica a justiça é nascido d’Ele”
( 1Jo 2:29 )
Qual a ênfase do versículo? A ênfase está em ‘todo aquele que pratica a justiça’, ou seja, através da ênfase temos a seguinte conotação: quem tem como pratica fazer o que é justo é nascido d’Ele.
É está a ideia que o apóstolo João procurou dar ênfase?








