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Os Nascidos de Deus não Pecam (Parte III) - Os Nascidos de Deus não Pecam (Parte III)

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Índice do Artigo
Os Nascidos de Deus não Pecam (Parte III)
A Palavra 'Pecado'
Qual a relação entre a lei e o pecado?
Qualquer que Permanece n'Ele não Peca
Todas as Páginas

Qualquer que permanece nele não peca

"E bem sabeis que ele se manifestou para tirar os nossos pecados; e nele não há pecado"
( 1Jo 3:5 )

Considerando que:

  • O homem natural não compreende as coisas de Deus, pois lhes aparenta ser loucura; não compreendem porque elas são espirituais e se discernem espiritualmente;
  • A mensagem de Cristo é celestial, e a idéia que ela apresenta deve ser analisada e comparada com as Escrituras, ou seja, comparando ‘coisas espirituais com espirituais’;
  • Os homens gerados segundo Adão são os filhos deste mundo;
  • Os filhos da Luz são aqueles gerados de novo segundo a palavra da verdade;
  • Elementos próprios à lógica podem ser utilizados como ferramenta de interpretação de texto;
  • A versão Almeida Revista e Corrigida (VRC) é superior a Almeida Revisada (VR) quando apresenta a asserção: "Qualquer que permanece nele não peca" ( 1Jo 3:6 a);
  • Não há conflito entre a asserção de 1Jo 3:6 e 1Jo 1:10, quando se leva em conta o público alvo da mensagem e o tempo em que a mensagem foi transmitida;
  • O sentido da palavra grega ‘hamartia’ quando utilizada pelos apóstolos ganha nova conotação;
  • O conceito de pecado: "...tudo o que não é proveniente- de- dentro- de fé é pecado" ( Rm 14:23 ), que foi apresentado pelo apóstolo Paulo;
  • A condição ‘em Pecado’;
  • O uso do dativo preposicionado;
  • Interpretação do Salmo 51;
  • A importância das figuras quando da interpretação bíblica;
  • As palavras gregas e hebraicas traduzidas por pecado;
  • A relação entre a lei e o pecado.  

Reunimos acima elementos para compreender a asserção: “Qualquer que permanece nele não peca” ( Jo 3:6 ).

O apóstolo João apresenta três asserções neste sentido:

"Qualquer que permanece nele não peca; qualquer que peca não o viu nem o conheceu" ( 1Jo 3:6 )

"Qualquer que é nascido de Deus não comete pecado; porque a sua semente permanece nele; e não pode pecar, porque é nascido de Deus" ( 1Jo 3:9 )

"Sabemos que todo aquele que é nascido de Deus não peca; mas o que de Deus é gerado conserva-se a si mesmo, e o maligno não lhe toca" ( 1Jo 5:18 ) 

Estas três asserções se complementam, visto que ‘qualquer que permanece em Cristo’ é porque ‘nasceu de Deus’. Ora, qualquer que permanece em Cristo (nascido de Deus) não peca, ou melhor, não comete pecado.

Como já demonstramos anteriormente, a ênfase da asserção do apóstolo João refere-se a algo pertinente à natureza do novo ser gerado de Deus. O advérbio de negação ‘não’ (operador lógico), aponta uma característica contínua e durativa pertinente àqueles que permanecem em Cristo.

Para falar da nova condição daqueles que são nascidos de Deus, o apóstolo João lança mão em suas premissas de um recurso semelhante ao que é utilizado na poesia hebraica (PARALELISMO), caracterizado principalmente pela repetição de idéias. Através deste recurso, uma idéia abordada é novamente afirmada logo em seguida, porém, com palavras diferentes, de modo que as asserções apresentam idéias equivalentes.

Como estamos analisando na primeira parte dos versículos, três asserções (afirmações) equivalentes ( 1Jo 3:6 ; 1Jo 3:9 ; 1Jo 5:18 ), e todos apresentam asserções na segunda parte, podemos utilizar alguns princípios da lógica. Dentre eles destacamos:

a) Princípio da identidade - se qualquer proposição é verdadeira, então, ela é verdadeira;
b) Princípio de não-contradição - nenhuma proposição pode ser verdadeira e falsa;
c) Princípio do terceiro excluído - uma proposição ou é verdadeira ou é falsa.

Conforme escreveu o apóstolo João, sabemos que: "Qualquer que permanece nele não peca”, proposição simples declarativa de valor lógico ‘verdadeiro’, conseqüentemente não é falsa, visto que qualquer proposição jamais assumirá dois valores lógicos simultaneamente: verdadeiro e falso.

Com base nestes princípios pertinentes à lógica, temos a asserção: “Qualquer que permanece nele não peca”, equivalente à asserção: “Qualquer que peca não o viu nem o conheceu” ( 1Jo 3:6 ).

Como a maioria dos escritores das cartas contidas no Novo Testamento construiram textos argumentativos, invariavelmente foram levados a utilizarem elementos pertinentes à lógica na defesa de suas propostas. A exposição e a defesa do evangelho são campos ferteis de argumentações, que geralmente se expressam em asserções e proposições.

As definições e conceitos quase não são utilizados pelos escritores bíblicos, visto que, a escrita antiga privilegia a articulação do pensamento como processo de aprendizagem, diferente do ensino atual, que prioriza a transmisão do conhecimento através de definições e conceitos, o que compromete a capacidade de reciocínio do aprendiz.

O interprete da bíblia precisa conhecer os princípios que informam a lógica e a arte do bem falar (retórica), visto que este conhecimento floreceu à época dos apóstolos devido a cultura grecoromana.

Dada uma proposição qualquer, simples, declarativa e de valor lógico verdadeiro, se inserirmos o operador lógico de negação (não), formaremos uma nova proposição simples, declarativa e de valor lógico falso. A reciproca também é verdadeira. Ex:

  • “Qualquer que permanece nele não peca” - (verdadeiro)
  • “Qualquer que não permanece nele peca” – (verdadeiro)
  • “Qualquer que permanece nele peca” – (falso)
  • “Qualquer que não permanece nele não peca” – (falso)

Através do operador lógico de negação tornou-se possível construirmos quatro proposições, duas de valores verdadeiro e duas de valores falsos.

O apóstolo João ao escrever cria ‘paraleleismos’ através das relações existentes nas proposições.  Ele geralmente cria duas proposições equivalentes para apresentar uma única ideia. Vejamos:

Qualquer que permanece nele não peca

Qualquer que peca não o viu nem o conheceu

Se invertermos alguns elementos da primeira proposição, temos o seguinte:

“Qualquer que não peca permanece nele

“Qualquer que peca não o viu nem o conheceu

Na asserção “Qualquer que permanece nele não peca”, a ênfase do apóstolo João repousa sobre o permanecer em Cristo, o que dá continuidade e duração a ação verbal ‘não peca’, o que é contínuo e durativoamartauei 3p.  sing. ind. pres.). Quando invertemos os elementos da asserção para “Qualquer que não peca permanece nele”, a ênfase desloca-se da palavra ‘permanece’ para a negativa do verbo pecar (não peca).

O estado das coisas que a sentença apresenta como verdadeiro (denotação) continua o mesmo, porém, a ideia que o escritor expressou (conotação) sofre variação, visto que a ênfase que o escritor atribuiu aos diferentes elementos da sentença modifica-se.

Devemos ter em mente que ‘permancer em Cristo’ implica em não pecar. Ora, a condição ‘não peca’ só é possível àqueles que estão, ou seja, que permanecem em Cristo, verdade esta que o apóstolo João procurou enfatizar. Quando deslocamos a ênfase para as palavras ‘não peca’, acabamos por criar uma idéia espúria, visto que teremos uma condição a ser satisfeita (não peca) para que o homem permaneça em Cristo.

Ciente destas possíveis variações de ênfase e conotação, o apóstolo João apresentou a segunda asserção equivalente à primeira tendo o cuidado de preservar os três significados dos componentes das asserções: a ênfase, a denotação e a conotação.

“Qualquer que permanece nele não peca. Qualquer que peca não o viu nem o conheceu

Permanecer em Cristo resulta em não pecar, porém, qualquer que peca é porque não viu e nem conheceu a Cristo. Isto indica que, quem viu e conheceu a Cristo, ou antes, foi conhecido d’Ele, permance n’Ele.

Podemos construir outras asserções equivalentes tendo o cuidado de não alterar o valor relativo que o escritor conferiu aos diferentes elementos das asserções, e para isso basta mudarmos de lugar o operador lógico de negação na asserção:

“Qualquer que não permanece nele peca. Qualquer que peca não o viu nem o conheceu”, ou;

“Qualquer que permanece nele não peca. Qualquer que não peca o viu e o conheceu

Além da possibilidade de se criar novas proposições através dos operadores lógicos, há outro recurso, que é construir através das designações (nomes) e proposições uma nova asserção.

Tal qual a linguagem corrente, a linguagem lógica é construida a partir de designações e proposições. Um determinado ‘ente’ pode ser designado através de muitas formas distintas. Por exemplo: “Paris”, “cidade luz” e “capital da França” são três designações distintas para o mesmo ente.

Se dissermos que “Lisboa” é a “capital da França”, temos uma proposição simples de valor lógico ‘falso’. Porém, se dissermos que “A cidade luz é Paris” ou que “A cidade luz é a capital da França”, temos duas proposições simples de valor lógico ‘verdadeiro’ e ‘equivalente’.

Quando lemos as cartas de João é necessário identificarmos quais designações referem-se ao mesmo ente, para podermos compreender o processo de construção das preposições e quais as relações que existe entre elas.

Observe as seguintes proposições:

Qualquer que permanece nele não peca” ( 1Jo 3:6 );

“Qualquer que peca não o viu nem o conheceu” ( 1Jo 3:6 );

Qualquer que é nascido de Deus não comete pecado; porque a semente de Deus permanece nele” ( 1Jo 3:9 );

“...e, não pode pecar porque é nascido de Deus” (1Jo 3:9 );

“Sabemos que todo aquele que é nascido de Deus não peca” ( 1Jo 5:18 );

“E nisto sabemos que o conhecemos: se guardarmos os seus mandamento” ( 1Jo 2:3 );

Este mandamento antigo é a palavra que ouvistes” ( 1Jo 2:7 ).

“Ora, o seu mandamento é este, que creiamos no nome do seu Filho Jesus Cristo...” ( 1Jo 3:23 );

“E aquele que guarda os seus mandamentos permanece em Deus, e Deus nele” ( 1Jo 3:24 ).

Destacamos nove proposições e todas estão intimamente ligadas.

As preposições ‘g’, ‘h’ e ‘i’ apresentam três designações que referem-se ao mesmo ente: ‘Este mandamento’ ou ‘o seu mandamento’ é o mesmo que ‘a palavra que ouvistes’, ou ‘que creiamos no nome do seu Filho Jesus Cristo’.

Portanto, se substituirmos a parte ‘a’ da proposição ‘i’ pelas designações identificadas anteriormente, teremos outras proposições, porém, todas expressando a mesma idéia da proposição inicial. Exemplo: “Ora, o seu mandamento (‘a palavra que ouvistes’, ou ‘este mandamento antigo’) é este, que creiamos no nome do seu Filho Jesus Cristo”.

Através destas substituições podemos analisar as outras preposições, visto que a proposição ‘i’ trata do mesmo assunto da preposição ‘a’. Como sabemos, o mandamento de Deus é específico: “...que creiamos no nomem do seu Filho Jesus Cristo”, ou seja, ‘este é o mandamento antigo’.

Deste modo conclui-se que qualquer que crê no nome de Jesus (que guarda o seu mandamento 1Jo 3:23 ), permanece em Deus, e Deus nele ( 1Jo 3:24 ).

Qualquer que permanece nele não peca” ( 1Jo 3:6 );

“E aquele que guarda os seus mandamentos permanece em Deus, e Deus nele” ( 1Jo 3:24 ).

Através das designações e dos entes pertinentes às proposições fica fácil perceber que, qualquer que crê em Cristo permanece em Deus, e Deus nele, o que leva a concluir que ‘aquele que guarda os seus mandamentos’ não peca.

Trocando os elementos das proposições ‘a’ e ‘h’, surgue uma nova proposição que expressa a mesma idéia da proposição inicial:

“E aquele que guarda os seus mandamentos...

 
 

...não peca

“Qualquer que permanece em Deus, e Deus nele...

 

Conclui-se que guardar os mandamento de Deus equivale a confessar, crer que Jesus é o Filho de Deus.

Estudamos as relações nas proposições que ‘criamos’ acima, porém, observe as mesmas relações nas proposições registradas pelo apóstolo João:

“E aquele que guarda os seus mandamentos permanence em Deus, e Deus nele” ( 1Jo 3:24 );

“Todo aquele que confessar que Jesus é o Filho de Deus, Deus está nele, e ele em Deus” ( 1Jo 4:15 ).

O apóstolo João em uma de suas raras ‘definições’ demonstrou que o mandamento de Deus é crer no nome de seu Filho Jesus Cristo ( 1Jo 3:23 ), e os dois entes utilizados na definição foram desmembrados para criar as duas proposições acima.

‘aquele que guarda os seus mandamentos’ ( 1Jo 3:24 )

‘aquele que confesar que Jesus é o Filho de Deus’ ( 1Jo 4:15 )

a + b = ( 1 Jo 3:23 )

Do mesmo modo podemos estabelecer a seguinte relação: ‘permanecer em Deus’ é o mesmo que ‘estar nele’. Vamos a uma nova relação entre os versículos:

‘Aquele que crê no nome do seu Filho Jesus Cristo’ ( 1Jo 3:23 ), ou ‘aquele que guarda os seus mandamentos’ ( 1Jo 3:24 ) é aquele que ‘conheceu’ a Deus “E nisto sabemos que o conhecemos: se guardarmos os seus mandamento” ( 1Jo 2:3 ).

O que significa ‘conhecer’ a Deus? ( 1Jo 2:3 ) Como ‘ver’ e ‘conhecer’ a Deus? ( 1Jo 3:6 )

Ora, para ‘ver’ e ‘conhecer’ a Deus basta guardar os seus mandamentos, que é: crê no nome do seu Filho Jesus Cristo.

Mas, o que significa ‘conhecer’ a Deus? Conhecer a Deus é estar e permanecer n’Ele. A palavra ‘conhecer’ ganha nova conotação, visto que ‘conhecer’ diz de ‘comunhão íntima’, ‘estar ligado intimamente a’, ‘permanecer’, ‘estar’.

Quando o homem une-se a sua mulher diz-se que ‘conheceu’ o homem a mulher, ou seja, temos a palavra ‘conhecer’ designando uma comunhão íntima. Quando o apóstolo João utilizou a palavra ‘conhecer’ para descrever a relação entre Deus e os que crêem, utilizou-a para demostrar a comunhão íntima que se estabeleceu entre os homem e Deus.

E aquele que guarda os seus mandamentos permanence em Deus, e Deus nele” ( 1Jo 3:24 )

Todo aquele que confessar que Jesus é o Filho de Deus, Deus está nele, e ele em Deus” ( 1Jo 4:15 ).

“E nisto sabemos que o conhecemos: se guardarmos os seus mandamentos” ( 1Jo 2:3 ).

‘Permanecer’, ‘estar’ e ‘conhecer’ são entes equivalentes. Se o homem crê em Cristo, ele passou a ‘conhecer’, ‘estar’ e ‘permanece’ em Deus. É impossível estar em Deus sem conhece-Lo. É impossível conhece-Lo sem permanecer n’Ele.

Voltamos a preposição inicial:Qualquer que permanece nele não peca ( 1Jo 3:6 ).

Antes de prosseguirmos, precisamos verificar as relações existentes em todos os versículos que afirmam que ‘não peca’ qualquer que ‘permanece’ em Deus.

Ora, ‘qualquer que permanece em Deus (n’Ele) é porque ‘O viu’ e ‘O conheceu’. Qualquer que O ‘viu’ e O ‘conheceu’ é porque é ‘nascido de Deus’. Qualquer que é nascido de Deus é porque guarda os seus mandamentos, ou seja, ‘a palavra que ouviu’, ou o ‘mandamento antigo’.

Concluimos que: qualquer que ‘permanece’, ‘viu’, ‘conheceu’, 'nasceu’, ‘foi gerado’, ‘ouviu a palavra’, ‘guardou o mandamento’, ‘confessou que Jesus é o Filho’, ’creu no enviado de Deus’ não peca ( 1Jo 3:6 ; 1Jo 3:9 ; 1Jo 5:18 ).

Todos as designações relacionadas acima fazem referência a um mesmo ente, o que nos leva a seguinte conclusão: apesar das diferentes designações as asserções apresentadas pelo apóstolo João expressam a mesma ideia.

Com relação a ênfase (a importância relativa que o escritor atribui a diferentes elementos na sentença), é necessário um cuidado maior quando se analisa as designações e os entes existente nas preposições. Observe:

“Qualquer que permanece nele não peca” ( 1Jo 3:6 ).

O apóstolo João procurou demonstrar (conotação) que o homem ‘não peca’ porque permanece em Deus, e não o contrário: o homem ‘não peca’ o que o levaria a ‘permanecer’ em Deus.

Agora, verifique o seguinte versículo quanto a ênfase (a importância relativa que o escritor atribui a diferentes elementos na sentença) e a conotação (sentimentos, ideia ou emoção evocados ao leitor pela sentença):

“Se sabeis que Ele é Justo, sabeis que todo aquele que pratica a justiça é nascido d’Ele
( 1Jo 2:29 )

Qual a ênfase do versículo? A ênfase está em ‘todo aquele que pratica a justiça’, ou seja, através da ênfase temos a seguinte conotação: quem tem como pratica fazer o que é justo é nascido d’Ele.

É está a ideia que o apóstolo João procurou dar ênfase?



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