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Os Nascidos de Deus não Pecam (Parte II)

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Índice do Artigo
Os Nascidos de Deus não Pecam (Parte II)
Em Busca de um Conceito de Pecado
O Uso do Dativo Preposicionado
Um Conceito de Pecado
A Condição 'em Pecado'
Salmo 51
As Figuras
As Escolhas diárias
Como descobrir o significado das palavras
Todas as Páginas

Ora, se a bíblia diz que os homens naturais não compreendem as coisas espirituais, pois lhes parece loucura ( 1Co 2:14 ), não é o trabalho dos lexicógrafos (homens naturais), mesmo quando bem intencionados, determinar qual o significado das palavras que expressam a verdade bíblica.

Não é porque os apóstolos utilizaram o vocábulo grego 'hamartia' (pecado) nos evangelhos e nas cartas, que a idéia de 'pecado' que eles procuraram evidenciar é a mesma idéia do pensador Aristóteles em suas obras.

Neste sentido, Millard J. Erickson disse: Esse sentido passou gradualmente a predominar. Ele designa não apenas o fato de os crentes serem formalmente separados, ou pertencerem a Cristo, mas que devem, portanto agir de acordo com isso. Eles devem viver em pureza e bondade” Introdução à Teologia Sistemática, por Millard J. Erickson, 1 ª ed. Vida Nova, Pg. 418.

O Dr. Bancroft também diz: “A raiz da qual se originam esta e outras palavras correlatas, é o vocábulo grego 'hagios'. O pensamento mais próximo da santidade de que era capaz o grego secular era “o sublime, o consagrado, o venerável”. O elemento moral está totalmente ausente. Ao ser adotada esta palavra nas Escrituras, entretanto, foi necessário proporcionar-lhe novo sentido. Empregando a palavra ‘santo’ em seu sentido mais elevado, quando aplicada a Deus, os melhores lexicógrafos definem-na como ‘aquilo que merece e exige reverência moral e religiosa’" BANCROFT, Emery. H., Teologia Elementar - 3º Edição 2001, Ed. EBR, Pág. 261 (grifo nosso).

Ora, se a bíblia diz que os homens naturais não compreendem as coisas espirituais, pois lhes parece loucura ( 1Co 2:14 ), não é o trabalho dos lexicógrafos (homens naturais), mesmo quando bem intencionados, estipular o significado das palavras provenientes de uma verdade bíblica.


Em Busca de um Conceito de Pecado

 "Eis que em iniqüidade fui formado, e em pecado me concebeu minha mãe"
( Sl 51:5 )

Através de elementos próprios à Lógica ficou demonstrado que a Almeida Revista e Corrigida (VRC) é superior a Almeida Revisada (VR). Porém, quando lemos na Almeida Revista e Corrigida (VRC): "Qualquer que permanece nele não peca" ( 1Jo 3:6 ª), qual o conceito bíblico de 'pecado'?

O apóstolo Tiago é categórico ao dizer: "Porque todos tropeçamos em muitas coisas" ( Tg 3:2 a), e ele não se exclui da asserção: 'todos tropeçamos' (mos = nós). Ele demonstrou estar efetivamente em Cristo quando disse: “... segundo a sua vontade, ele nos gerou pela palavra da verdade, para que fôssemos como que primícias das suas criaturas" ( Tg 1:18 ), e, logo após, demonstrou estar sujeito a tropeços.

Ora, se não peca qualquer que permanece em Cristo, e todos que permanecem unidos a Ele são passíveis de 'tropeçar', qual o conceito de 'pecado' e 'tropeço'? Aquele que tropeça peca? Qual a definição bíblica de pecado?

O escritor aos Hebreus pediu aos seus leitores que orassem em seu favor. Apesar de estar plenamente convencido de que se portava de modo digno (boa consciência), ele desejava portar-se corretamente em todas as coisas "Orai por nós, porque confiamos que temos boa consciência, como aqueles que em tudo querem portar-se honestamente" ( Hb 13:18 ). Ou seja, Tiago queria portar-se de modo a não dar escândalo a gregos, judeus e nem a igreja de Deus ( 1Co 10:32 ).

É possível a alguém que se tornou participante de Cristo não se portar de modo correto em todas as coisas? "Temo-nos tornado participantes de Cristo..." ( Hb 3:14 ). Portar-se de modo desonesto em alguma coisa é o mesmo que pecado? O que é pecado?

Portar-se de modo honesto em tudo era um desejo do escritor aos Hebreus. Por que apenas um desejo? Observa-se que os padrões de honestidade estabelecidos pelos homens mudam de tempos em tempos, de épocas em épocas e de sociedade para sociedade, o que tornava a empreitada do escritor em questão dificílima.

A resposta para a pergunta acima não é simples, e, portanto, faz-se necessário apresentar os elementos que dão base e sustentação a ela. Por isso, apresentaremos a seguir o desenvolvimento do raciocínio.

O profeta Isaias deixou registrado o seguinte: "Pelo que por lábios estrangeiros e por língua estranha Deus falará a este povo, ao qual disse: Este é o descanso, dai descanso ao cansado; e: Este é o refrigério; mas não quiseram ouvir" ( Is 28:11 -12). Por causa dos lideres de Israel que distorceram a palavra de Deus, transformando-a em preceitos e regras de homens, Deus prometeu falar ao povo utilizando uma língua estranha (estrangeira), para indicar (apontar = este) lhes o Descanso prometido.

Quando Jesus falou às multidões, ele convocou os cansados e oprimidos utilizando o grego Koinê, a linguagem própria ao povo "Vinde a mim, todos os que estais cansados e oprimidos, e eu vos aliviarei" ( Mt 11:28 ). Através do grego popular Jesus, o Verbo encarnado, apontou ao povo o descanso: Eu vos aliviarei! Deus falou ao povo conforme a profecia de Isaias.

Embora Jesus falasse ao povo utilizando uma linguagem coloquial, popular (grego Koinê), muitos não compreenderam a sua mensagem. João Batista assim testemunhou acerca de Jesus: "Aquele que vem de cima é sobre todos; aquele que vem da terra pertence à terra, e fala como alguém da terra. Aquele que vem do céu é sobre todos. Ele testifica do que viu e ouviu, mas ninguém aceita o seu testemunho (...) Aquele que Deus enviou fala as palavras de Deus, pois Deus lhe dá o Espírito sem medida" ( Jo 3:31 -34).

Enquanto alguém que é da terra fala conforme a linguagem dos homens, Aquele que é do céu (Jesus) falou aos homens as palavras de Deus segundo o que Ele viu e ouviu do Pai ( Jo 3:12 ), porém, não aceitaram o testemunho de Cristo.

Este testemunho de João Batista, o homem que teve a missão de preparar o caminho do Senhor, demonstra que, apesar de Jesus e os apóstolos terem utilizado signos lingüísticos próprio ao grego popular, a doutrina que transmitiam não possuía nenhuma relação de equivalência ou semelhança com o pensamento humano e a cultura da época.

O que eles anunciaram, ouvido ou olho algum dentre os homens haviam ouvido e visto. Nenhum ouvido dentre os homens havia ouvido, mas o Verbo encarnado, que ouviu e viu junto ao Pai, tornou conhecido (revelou) através do evangelho "Mas, como está escrito: As coisas que o olho não viu, e o ouvido não ouviu, e não subiram ao coração do homem, são as que Deus preparou para os que o amam" ( 1Co 2:9 ).

A leitura das Escrituras hoje só é possível através do trabalho de lexicógrafos que arduamente estudaram a evolução da língua grega no decorrer dos anos. Porém, o trabalho deles não é o de acrescentar significado às palavras.

Sabemos que os estudiosos se debruçaram sobre inúmeros papiros, ostracas (fragmento de cerâmica), inscrições sepulcrais, cartas, registros, documentos, etc, para determinar o significado preciso das palavras utilizadas à época. Porém, o significado de algumas palavras quando presentes nos escritos da bíblia transcendem a idéia humana para expressar uma verdade espiritual.

Como exemplo, os lexicógrafos conseguiram determinar que o vocábulo 'hagios' no grego clássico expressava a idéia de 'consagração aos deuses'. Qualquer coisa destinada aos 'deuses' gregos era designada 'santo' através deste vocábulo. Já no grego secular, o pensamento mais próximo de santidade que a palavra 'hagios' e outras palavras correlatas podiam expressar era 'o sublime, o consagrado, o venerável'.

O elemento moral não existe na palavra 'hagios', porém, quando depararam com esta palavra nas Escrituras, os tradutores sentiram a necessidade de proporcionar-lhe novo sentido, acrescentando à palavra a idéia de moralidade.

Com o passar dos anos, passaram a definir a palavra 'santo', proveniente do vocábulo 'hagios', como sendo 'aquilo que merece e exige reverência moral e religiosa’.

Neste sentido, Millard J. Erickson disse: Esse sentido passou gradualmente a predominar. Ele designa não apenas o fato de os crentes serem formalmente separados, ou pertencerem a Cristo, mas que devem, portanto agir de acordo com isso. Eles devem viver em pureza e bondade” Introdução à Teologia Sistemática, por Millard J. Erickson, 1 ª ed. Vida Nova, Pg. 418.

O Dr. Bancroft também diz: “A raiz da qual se originam esta e outras palavras correlatas, é o vocábulo grego 'hagios'. O pensamento mais próximo da santidade de que era capaz o grego secular era “o sublime, o consagrado, o venerável”. O elemento moral está totalmente ausente. Ao ser adotada esta palavra nas Escrituras, entretanto, foi necessário proporcionar-lhe novo sentido. Empregando a palavra ‘santo’ em seu sentido mais elevado, quando aplicada a Deus, os melhores lexicógrafos definem-na como ‘aquilo que merece e exige reverência moral e religiosa’" BANCROFT, Emery. H., Teologia Elementar - 3º Edição 2001, Ed. EBR, Pág. 261 (grifo nosso).

Ora, se a bíblia diz que os homens naturais não compreendem as coisas espirituais, pois lhes parece loucura ( 1Co 2:14 ), não é o trabalho dos lexicógrafos (homens naturais), mesmo quando bem intencionados, estipular o significado das palavras provenientes de uma verdade bíblica.

Não é porque os apóstolos utilizaram o vocábulo grego 'hamartia' (pecado) nos evangelhos e nas cartas, que a idéia de 'pecado' que eles procuraram evidenciar é a mesma idéia do pensador Aristóteles em suas obras.

Para Aristóteles (384 a. C - 322 a. C), 'hamartia' (pecado) é o resultado do mau julgamento, da ignorância, de fraquezas inatas ou quaisquer outras coisas que acomete o herói trágico. No entanto, 'hamartia' define-se como ação ou ato falho em conseqüência de um erro, de um juízo errôneo ou um passo mal dado.

Para os gregos, uma forma comum de pecado (hamartia) era o orgulho ou excesso de autoconfiança que conduzia os protagonistas das tragédias gregas a desobedecer aos avisos das divindades, ou a violar qualquer lei moral vigente na polis, que os levavam, conseqüentemente, à queda e à inevitável punição.

É a 'hybris', um tipo de 'violência' contra as divindades. Ao ultrapassar o métron, o homem estaria cometendo a insolência, um ultraje, na pretensão de competir com a divindade. Daí o sentido metafórico de orgulho, arrebatamento e impetuosidade.

Observe que as considerações acerca das palavras 'hamartia' e 'hybris' decorre do conhecimento grego e é produto das considerações proveniente das relações humanas, de suas leis e regras morais.

O conhecimento produzido pela cultura grega não dá para comparar com a glória de conhecer a Deus, ou antes, ser conhecido d'Ele, através do poder do evangelho ( Gl 4:9 ). Enquanto este é loucura, aquele é sabedoria humana ( 1Co 1:23 ; 1:18 ).

A cultura grega clássica era politeísta, a noção de indivíduo dissolve-se no grupo, a culpa pelos erros cometidos não é individual, pois influenciava o grupo. Embora na Grécia antiga também houvesse a culpa individual, a postura da Grécia homérica é a da culpa coletiva. Os erros são chamados de 'hamartia', ou seja, 'uma mancha que se espalha' contaminando ou afetando todos os membros do guénos. De alguma forma o coletivo era culpado e deveria expiar a falta do indivíduo.

Para o homem natural a palavra 'hagios' no decurso do tempo passou a definir aquilo que merece e exige reverência moral e religiosa. Para o homem espiritual, a mesma palavra aponta uma das características da natureza do novo homem. Por ter sido de novo gerado segundo Deus (participante da natureza divina), a nova obra realizada por Deus em Cristo é designada santa (hagios).

O fato de o novo homem ter sido criado de novo segundo o poder de Deus já o torna separado (santo) de todos os outros homens, que permanecem destituídos de Deus (imundos).

Para os gregos 'hamartia' é proveniente do ato de errar o alvo, para os cristãos 'hamartia' é condição proveniente da queda de Adão pertinente à natureza decaída.

Muitos gramáticos são unânimes em reconhecer que a sintaxe e o estilo dos escritores do Novo Testamento possuem características próprias ao evangelho. Vale salientar uma destas características, pois ela ajudará na definição do conceito bíblico da palavra 'pecado'.

 


O Uso do Dativo Preposicionado

A frase preposicional 'em Cristo' no grego é um uso específico do dativo. Como é sabido, antes dos escritores do Novo Testamento não há registro de que alguém dentre os gregos tenha utilizado o dativo preposicionado para expressar 'em Platão', 'em Sócrates', etc. Somente no Novo Testamento encontramos frases com este uso específico do dativo.

O capítulo 1 da carta aos Efésios aponta este uso do dativo em frase preposicional. O elemento gramatical mais repetido é a preposição grega 'en', correspondente ao nosso “em”, seguida do dativo 'Χριστv'. Ela vem com o pronome pessoal (“nele”), ou com um nome (“em Cristo”, “no Amado”).

Diante do dativo preposicionado temos: O cristão é fiel 'a' Cristo ou fiel 'em' Cristo? "Paulo, apóstolo de Cristo Jesus pela vontade de Deus, aos santos que estão em Éfeso, e fiéis em Cristo Jesus" ( Ef 1:1 ). Estar 'em Cristo' é a condição de existência da nova criatura. Por estar 'em Cristo' o homem é fiel! 'Em Cristo' o homem é santo. 'Em Cristo' o homem é predestinado, eleito, justificado, etc.

Diferente é a concepção dos homens naturais, pois consideram que a fidelidade é proveniente de uma qualidade humana. Para o homem natural fiel é aquele que é constante e firme nas suas afeições e sentimentos. Diz de uma qualidade pessoal, e não de uma condição alcançada pela fé naquele que é Fiel.

A carta de Paulo aos Efésios apresenta todos os elementos necessários para conscientizar os cristãos acerca da condição deles 'em Cristo' "É também nele que vós estais, depois que ouvistes a palavra da verdade..." ( Ef 1:13 ).

Porém, esta forma peculiar dos cristãos utilizarem o dativo preposicionado não é por acaso. Ela é herança dos escritos do Antigo Testamento, onde temos: "Ora, tendo a Escritura previsto que Deus havia de justificar pela fé os gentios, anunciou primeiro o evangelho a Abraão, dizendo: Em ti serão benditas todas as nações" ( Gl 3:8 ).

A sintaxe cristã é diferente da sintaxe dos gregos porque ela expressa a mesma verdade do evangelho anunciado por Deus a Abraão. Quando Deus anunciou o evangelho a Abraão dizendo: "Em ti...", ou seja, 'em seu Descendente', que é Cristo, todas as famílias da terra seriam benditas. Isto demonstra que a 'linguagem' dos apóstolos expressa uma idéia com estilo próprio anterior a própria linguagem e estilos dos gregos.

Na bíblia encontramos 'em Cristo' e 'em Abraão'. Ora estar 'em Cristo' é o mesmo que ser bem-aventurado 'em' Abraão, pois é através da mesma fé do crente Abraão que se alcança a bem-aventurança prometida no Descendente.

No Antigo Testamento temos também o dativo preposicionado 'em pecado': "Eis que em iniqüidade fui formado, e em pecado me concebeu minha mãe" ( Sl 51:5 ).

Paulo demonstra o contraste entre Adão e Cristo utilizando o dativo preposicionado: "Porque, assim como todos morrem em Adão, assim também todos serão vivificados em Cristo" ( 1Co 15:22 ).

Para estar 'em Cristo' é necessário ao homem ser gerado de novo através da semente incorruptível, que é a palavra de Deus. Ela é poder de Deus para os que crêem, para fazê-los filhos de Deus ( Jo 1:12 ). Estar 'em Cristo' é o mesmo que ser uma nova criatura ( 2Co 5:17 ), criada segundo Deus em verdadeira justiça e santidade ( Ef 4:24 ). Livre do pecado. Livre da injustiça. Livre da desobediência. Livre da ira. Livre da corrupção deste mundo, etc.

'Em Adão' o homem é gerado segundo a vontade da carne, do sangue e da vontade do varão. 'Em Adão' o homem torna-se participante da natureza pecaminosa de Adão. Nele há uma triste realidade: todos morreram! Independente de quaisquer questões morais ou comportamentais, o homem gerado segundo Adão é filho da desobediência e da ira.

'Em Adão' o homem é pecador. Independe de sua conduta, 'vive' em sujeição ao pecado. Nem mesmo quando dorme (repousa no sono) livra-se da condição de pecado. Ele peca porque é pecador, e não o contrário.

É por isso que o salmista Davi disse: "Eis que em iniqüidade fui formado, e em pecado me concebeu minha mãe" ( Sl 51:5 ). Ele reconheceu a sua condição de miséria por ser descendente de Adão. As suas ações, os seus erros nada representava diante da condição de sujeição ao pecado (em pecado).

Se o povo de Israel compreendesse que as suas mazelas espirituais eram provenientes do primeiro pai (Adão), deixariam de acreditar que eram salvos por serem descendentes de Abraão "Teu primeiro pai pecou, e os teus intérpretes prevaricaram contra mim" ( Is 43:27 ).

Por causa de Adão as Escrituras protestam contra todos os homens: "Desviaram-se todos, e juntamente se fizeram imundos; não há quem faça o bem, não, nem sequer um" ( Sl 53:3 ). O que os homens consideram ser melhor, não tem valor diante de Deus: "O melhor deles é como um espinho; o mais reto é pior do que a sebe de espinhos" (Miquéias 7: 4a).

Enquanto a concepção grega de pecado é proveniente dos atos, das condutas, das ações, do dolo, da culpa, do desregramento que leva à queda e a punição dos 'protagonistas', a bíblia demonstra que 'em Adão' todos foram julgados e estão debaixo de condenação "Pois assim como por uma ofensa veio o juízo sobre todos os homens, para condenação..." ( Rm 5:18 ). Todos estão caídos (pecaram) em Adão!

Com base nas informações acima, já é possível verificar porque o ‘portar-se de modo honesto em tudo’ era uma ambição do escritor aos Hebreus.

Ora, sabemos que o escritor aos Hebreus era participante de Cristo, ou seja, livre da corrupção do pecado, um dos filhos de Deus. Ele havia alcançado a filiação divina e portava-se de modo honesto diante de Deus e dos homens, porém, a meta dele era porta-se de modo honesto em TUDO "Pois zelamos do que é honesto, não só diante do Senhor, mas também diante dos homens" ( 2Co 8:21 ).

Conclui-se que, o modo honesto deve ser a tônica da vida cristã, tendo como meta o portar-se de modo honesto em tudo. Porém, deve compreender que o modo honesto ou o desonesto não é o que vincula o homem a Deus ou ao pecado. Deve compreender que o que vincula o homem ao pecado é o nascimento segundo Adão, e o que vincula o homem á justiça é o novo nascimento, segundo o último Adão (Cristo).

Quando Jesus anunciou que poucos entram pela porta estreita, fez referência ao novo nascimento por meio da palavra do evangelho. Quando Ele fez referência à porta larga e ao caminho espaçoso que conduz os homens à perdição, a idéia evidenciada centra-se no nascimento natural, a porta larga, por onde todos os homens entram neste mundo.

Após entrar pela porta larga (nascimento segundo a carne), independente de questões morais, comportamentais ou de caráter, o homem está em um caminho espaçoso que o conduz à perdição.

 


Um Conceito de Pecado

Durante a leitura da carta aos Romanos é fácil perceber que o apóstolo Paulo utiliza um recurso lingüístico (figura de linguagem) para fazer referência ao evangelho de Cristo. Observe: 

  •  
    • “... para a obediência da fé entre todos os gentios...” ( Rm 1:5 );
    • “... porque em todo o mundo é anunciada a vossa fé ( Rm 1:8 );
    • “... seja consolado pela fé mutua, assim vossa como minha” ( Rm 1:12 ).

Tal figura de linguagem é denominada perífrase, pois temos a palavra ‘fé’ substituindo a idéia da palavra ‘evangelho’.  O evangelho (fé) foi anunciado aos gentios para obediência. Do mesmo modo, em todo mundo estava sendo anunciado o evangelho, ou seja, a ‘vossa fé’. Paulo e os cristãos seriam consolados mutuamente através do evangelho, que equivale a ‘fé mutua’.

Para não repetir várias vezes a palavra ‘evangelho’ e estruturar o texto com maior graciosidade, Paulo substituiu alguns termos por outros, utilizando-se de recursos pertinentes à linguagem.

Após analisar este uso evidente de uma figura de linguagem própria a semântica, faz-se necessário observar com acuidade todas as cartas de Paulo, visto que, algumas ‘figuras de linguagem’ ou ‘recurso de estilística’ pode interferir na interpretação do texto, caso não seja percebida pelo leitor.

Desta forma, analisemos a seguinte afirmação de Paulo: “Bem sabemos que o juízo de Deus é segundo a verdade...” ( Rm 2:2 ). 

O que o ‘apóstolo dos gentios’ expõe neste verso era de conhecimento dos cristãos em geral, visto que eles ‘bem sabiam’ do que Paulo estava tratando “Bem sabemos...” ( Rm 2:2 ).

Através do contexto é possível verificar que a palavra ‘verdade’ em Romanos 2: 2 substitui a palavra ‘evangelho', do mesmo modo como se verifica no verso 16, quando Paulo faz referência ao juízo de Deus: 

  • “Bem sabemos que o juízo de Deus é segundo a verdade...” ( Rm 2:2 );
  • “Isto sucederá no dia em que Deus há de julgar os segredos dos homens, por meio de Jesus Cristo, segundo o meu evangelho ( Rm 2:16 ). 

Após verificar que é similar a idéia que Paulo estabelece entre as palavras ‘evangelho’ e ‘verdade’, ‘fé’ e ‘evangelho’, temos elementos essenciais para analisar o conceito de pecado que Paulo apresentou.

Paulo apresentou um conceito de pecado: "...e tudo o que não é de fé é pecado" ( Rm 14:23 b).

Observe as preposições utilizadas: 'de' fé em lugar de 'por' fé. O verso é melhor traduzido assim: "...tudo o que não é proveniente- de- dentro- de fé é pecado" ( Rm 14:23 ).

Por descansar em Deus (confiança ou fé) o homem alcança o que é proveniente de fé, ou seja, o que é proveniente do evangelho!

O que é proveniente do evangelho (fé)? A obra exclusiva de Deus proveniente de fé é a nova criatura "Jesus respondeu, e disse-lhes: A obra de Deus é esta: Que creiais naquele que ele enviou" ( Jo 6:29 ). Quando o homem crê em Cristo é criado o que é proveniente de fé: a nova criatura, obra exclusiva de Deus!

Nesta definição o apóstolo Paulo fez referência àquilo que é concedido por Deus (proveniente- de- dentro- de fé) ao homem. A locução prepositiva 'de fé' foi utilizada para sintetizar tudo o que o homem alcança através da mensagem do evangelho, que em suma, expressa a fidelidade de Deus.

Isto porque a crença que o homem deposita em Deus é nomeada fé ( Rm 3:22 ), da mesma forma que a verdade do evangelho também é denominada fé ( Jd 1:3 ).

Ora, Paulo através desta definição indica a nova condição do homem alcançada de Deus: o que é (proveniente) de fé, ou seja, o novo homem somente existe (proveniente) de fé (por meio do evangelho). O que é 'proveniente' de fé é a nova criatura, que é criada segundo Deus, em verdadeira justiça e santidade.

Se a nova criatura é proveniente de fé, o que não é proveniente de fé (homem natural) é pecado, ou seja, se não é gerado da vontade de Deus foi gerado segundo o pecado. Tudo que é gerado (proveniente- de- dentro- de) de Adão é pecado. O que é gerado de Deus ‘em Cristo’ constitui-se em verdadeira justiça e santidade, e o que é gerado em Adão é pecado.

Em linhas gerais, a palavra pecado faz referência à condição da natureza do homem natural gerado segundo (em) Adão.

Pela natureza (em pecado) herdada através do nascimento natural o homem carnal é (todo) pecador, e tudo que é proveniente dele também é definido como sendo pecado. É por isso que a bíblia diz que todos se desviram e juntamente se fizeram inúteis ( Sl 14:3 e Sl 53:3 ).

É por isso que o apóstolo Paulo disse que a justiça de Deus se descobre de fé em fé ( Rm 1:17 ), ou seja, ‘... de fé...’ refere-se à mensagem do evangelho, e ‘... em fé’ o descansar na esperança proposta (crer).

  


 

A Condição ‘em pecado’

Todos os homens desviaram-se de Deus porque todos foram formados e concebidos 'em pecado' "Eis que em iniqüidade fui formado, e em pecado me concebeu minha mãe" ( Sl 51:5; Rm 3:23 ).

'Em Adão' os homens foram criados (feitos) 'em alma vivente' "Assim está também escrito: O primeiro homem, Adão, foi feito em alma vivente; o último Adão em espírito vivificante" ( 1Co 15:45 ). Obs.: não se esquecer do dativo preposicionado analisado sob o título ‘Um conceito de Pecado’.

Como a condição de existência do homem é segundo a natureza pecaminosa herdada de Adão, todas as suas ações também são definidas ou denominadas ‘pecado’. Por isso diz as escrituras: "Todos se extraviaram, e juntamente se fizeram inúteis. Não há quem faça o bem, não há nem um só" ( Rm 3:12 ).

Os homens naturais fazem o mau porque se perderam em Adão, e não o contrário (faz o que é mau e por isso se perde). Embora os homens saibam fazer muitas coisas boas aos olhos de seus semelhantes, diante de Deus eles são efetivamente ‘maus’ “Pois se vós, sendo maus, sabeis dar boas dádivas aos vossos filhos, quanto mais dará o Pai celestial o Espírito Santo àqueles que lho pedirem?" ( Lc 11:13 ).

'Em Adão' todos os homens se extraviaram e juntamente se fizeram inúteis por causa da sujeição ao pecado. Por causa da servidão (jugo) ao pecado não há nem um só homem natural que faça o bem, ou seja, todas as ações, pensamentos e condutas más, ou mesmo as boas ações, não é o bem diante de Deus.

O salmista Davi deixou registrado que os pecadores transgridem mesmo sem causa "Na verdade, não serão confundidos os que esperam em ti; confundidos serão os que transgridem sem causa" ( Sl 25:3 ). Mesmo sem qualquer ação ou causa visível, os homens que não confiam em Deus transgridem, ou melhor, são transgressores.

É por isso que Jesus disse: "Respondeu-lhes Jesus: Em verdade, em verdade vos digo que todo aquele que comete pecado é servo do pecado" ( Jo 8:34 ), ou seja, somente cometem pecado os servos do pecado.

Os servos do pecado (filhos da desobediência de Adão) comentem pecado, e os servos da obediência (filhos de Deus) praticam a justiça "Não sabeis vós que a quem vos apresentardes por servos para lhe obedecer, sois servos daquele a quem obedeceis, ou do pecado para a morte, ou da obediência para a justiça?" ( Rm 6:16 ).

Os homens não se tornaram servos do pecado por pecar, antes por Adão ter pecado, eles foram gerados na condição de servos do pecado. Os descendentes de Adão foram vendidos como escravos ao pecado e pecam porque são servos do pecado.

Para melhor compreendermos o fato de o homem pecar por ser servo do pecado, analisemos o salmo 51, que demonstra porque todos os homens nascidos em Adão são escravos do pecado, e demonstra também, com grandeza de detalhes, qual a única maneira possível de sujeitarem-se a Deus.

 


Salmo 51

“Tem misericórdia de mim, ó Deus, segundo o teu constante amor; segundo a tua grande compaixão, apaga as minhas transgressões” ( Sl 51:1 )

O salmista ora (confia) ao Senhor porque somente a misericórdia e compaixão de Deus livram os homens das suas transgressões ( Sl 51:1 ). A oração do salmista é uma demonstração explicita de confiança em Deus, ou seja, aquele que confia ora a quem pode socorrer.

“Lava-me completamente da minha iniqüidade, e purifica-me do meu pecado” ( Sl 51:2 )

Somente a ação de Deus (lavar e purificar) pode remover a condição herdada no nascimento natural (vs. 2 e 5). Lavar é uma figura que remonta a idéia da regeneração. É por isso que o apóstolo Pedro demonstra que a purificação se dá por meio da obediência à verdade ( 1Pe 1:3 e 22).

“Pois eu conheço as minhas transgressões, e o meu pecado está sempre diante de mim” ( Sl 51:3 )

Os erros e o pecado eram patentes ao salmista (v. 3). As suas transgressões eram conhecidas, porém, o pecado era impossível de ser removido através de suas forças e recursos: estava sempre diante dele.

“Contra ti, contra ti somente pequei, e fiz o que é mau diante dos teus olhos, de modo que és justificado quando falas, e puro quando julgas” ( Sl 51:4 )

O salmista demonstra que o seu pecado, a condição herdada de Adão, interfere diretamente na sua relação com Deus, ou seja, o pecado do homem é contra o seu Criador somente, e não contra os seus semelhantes. A condição que o salmista apresenta neste versículo é pertinente a todos os homens, pois tudo que os descendentes de Adão fazem é o ‘mau’ diante dos olhos de Deus ( Sl 14:3 ). Todas as ações do salmista diante dos olhos de Deus era o mau, pois na condição de pecado não há quem faça o bem (boas e más ações resumem-se no mau) ( Sl 53:3 ).

“Certamente em iniqüidade fui formado, e em pecado me concebeu a minha mãe” ( Sl 51:5 )

A condição de pecado, ou de sujeição ao pecado é proveniente de Adão, onde todos os homens nascidos de mulher são formados 'em' iniqüidade e concebidos 'em' pecado. O salmista não faz alusão ao seu comportamento como causa de sujeição ao pecado, antes aponta a origem de tal submissão ao pecado por ser gerado segundo Adão (me concebeu minha mãe).

“Purifica-me com hissopo, e ficarei puro; lava-me, e ficarei mais alvo do que a neve. Faze-me ouvir júbilo e alegria; regozijem-se os ossos que tu quebraste” ( Sl 51:7 - 8)

É Deus quem purifica e lava o homem. Após a purificação e a lavagem o homem fica purificado e a mancha do pecado é removida. Quando um pecador se arrepende há júbilo e alegria nos céus pela obra realizada por Deus. A obra de Deus é realizada no íntimo do homem, pois é lá que Deus passa a habitar. É Deus quem purifica e lava o homem através da palavra da verdade, trazendo o regozijo da salvação àqueles que eram contristados pela miséria dos ossos quebrados (pecado).

 “Esconde a tua face dos meus pecados, e apaga as minhas iniqüidades” ( Sl 51:9 )

Neste verso o salmista apresenta a grandiosidade da obra realizada por Deus, pois somente na morte do velho homem é possível esconder os pecados da face de Deus. É no batismo na morte de Cristo que todas as iniqüidades são de fato apagadas.

“Cria em mim, ó Deus, um coração puro, e renova em mim um espírito reto” ( Sl 51:10 )

Tudo isto é possível de fé (evangelho) em fé (descansa), pois somente invocam a Deus os que nele esperam (Romanos 1: 16- 17). Somente esperam aqueles que confiam. A confiança do salmista é expressa em oração: "Cria em mim..." (v. 10).

Os ímpios desejam mudar de ações e caráter, pois entendem que as obras contém o fator preponderante para salvação. Os justos esperaram em Deus, que lhes dá um novo coração e um novo espírito ( Ez 36:26 ).

No nascimento natural 'em' Adão o homem é criado 'em' alma vivente, participante da ofensa, do juízo e da condenação de Adão ( Rm 5:18 ), 'em' Cristo Deus faz nova todas as coisas! Concede ao homem um novo coração e um novo espírito reto (segundo a natureza divina) ( Is 57:15 ).

“Não me lances fora da tua presença, e não retires de mim o teu Espírito Santo” ( Sl 51:11 )

A nova vida só é possível através da presença de Deus no íntimo do homem, fazendo dele templo e morada do Espírito. Estar na presença de Deus concede a perfeição anunciada a Abraão ( Gn 17:1 ).

“Torna a dar-me a alegria da tua salvação, e sustêm-me com um espírito voluntário” ( Sl 51:12 )

A alegria do Senhor é (a nossa) força para manter a voluntariedade do Salmista! Ele demonstra que, através da alegria da salvação, se aplicará a ensinar. Ele indicará o caminho do Senhor aos pecadores, e eles hão de se converter (abandonando o caminho do pecado) "Disse-lhes mais: Ide, comei as gorduras, e bebei as doçuras, e enviai porções aos que não têm nada preparado para si; porque este dia é consagrado ao nosso Senhor; portanto não vos entristeçais; porque a alegria do SENHOR é a vossa força" ( Ne 8:10 ). Cristo é a força do Senhor, pois o Pai dele disse: "E eis que uma voz dos céus dizia: Este é o meu Filho amado, em quem me comprazo" ( Mt 3:17 ).Compraz é o mesmo que alegria. Cristo é a alegria (comprazo) de Deus, a força de Deus concedida aos homens.

“Livra-me dos crimes de sangue, ó Deus, Deus da minha salvação, e a minha língua cantará a retidão” ( Sl 51:14 )

A nova condição do salmista não o exime de erros nas relações humanas, porém, ele confia no Senhor que o livrará dos crimes de sangue. Observe que a condição de pecado difere da idéia de crime. Enquanto este é uma meta para os cristãos, visto que em tudo desejamos portar-nos honestamente, aquele diz da condição de sujeição ao pecado por causa de Adão.

 


As Figuras

Além do exposto no salmo 51, a bíblia apresenta outras figuras que ilustram a condição do homem sob o jugo do pecado.

Uma delas é a figura das duas portas: a larga, que dá acesso ao caminho de perdição, e a outra, a porta estreita, que dá acesso ao caminho de salvação.

O nascimento natural dá acesso à porta larga, que é Adão, em contraste com o novo nascimento, que é a porta estreita. Cristo é a porta estreita que dá acesso ao caminho estreito que conduz a Deus, que é Cristo (último Adão).

Quem entrou pela porta estreita, que é Cristo, não tem como andar no caminho espaçoso. Quem entrou pela porta larga (Adão), não tem como trilhar o caminho estreito.

O caminho que os homens trilham não é determinado por suas ações, moral, conduta, etc.

Observe o que Jesus disse: "Porquanto veio João, não comendo nem bebendo, e dizem: Tem demônio. Veio o Filho do homem, comendo e bebendo, e dizem: Eis aí um homem comilão e beberrão, amigo dos publicanos e pecadores. Mas a sabedoria é justificada por seus filhos" ( Mt 11:18 -19).

Ora, sabemos que João Batista trilhava o caminho estreito mesmo tendo um comportamento diferente do comportamento adotado por Cristo, aquele que é a porta estreita. O homem olha para o que é aparente (comportamento), mas Deus olha para o coração (de quem foi gerado).

Deus olha diretamente para o coração, e não para as questões morais, pois é através do coração que se determina se o homem é corrupto segundo a natureza herdada de Adão, ou se possui o novo coração, criado (Bara) em verdadeira justiça e santidade ( Jr 17:9 ; Sl 51:10 ; Is 57:15 ), aceitável diante dele.

Quando Jesus fez o comentário: "Mas a sabedoria é justificada por seus filhos", temos que, a sabedoria dos homens não coaduna do que é pertinente a sabedoria de Deus "Visto como na sabedoria de Deus o mundo não conheceu a Deus pela sua sabedoria, aprouve a Deus salvar os crentes pela loucura da pregação" ( 1Co 1:21 ).

No entendimento do homem natural o 'mais' santo é aquele que não come, que se abstêm Não é porque alguém não come que é mais espiritual do que quem come. Do mesmo modo, não é o tipo de alimento que torna o homem agradável ou desagradável Diane de Deus.

Os filhos da carne possuem sabedoria carnal e os filhos do Espírito, sabedoria espiritual, pois a sabedoria divina vem do alto, ela é revelada no evangelho de Cristo.

Nascer de Adão (entrar na porta larga) não decorre da vontade humana e nem das escolhas dos homens. O homem entra (nasce) pela 'porta larga' para depois ter vontades, escolhas, condutas, moral, etc. Ou seja, é impossível ao homem livrar-se da condição herdada 'de' ou 'em' Adão através de elementos humanos que passam a influenciar o homem após ter entrado pela porta larga (nascer de Adão).

 


As Escolhas diárias

Não foi a conduta, a vontade, as escolhas, o comportamento, a moral que sujeitou o homem debaixo do jugo do pecado. Antes, foi o fato de o homem ter nascido participante da natureza decaída de Adão que estabeleceu a sua condição de escravo do pecado.

Na condição de escravo, servo do pecado, não há como o homem liberta-se através de suas escolhas, vontades, condutas, moral e comportamento. O pecado não é um senhor bondoso que deixará os seus servos livres. Da mesma forma que era impossível a um escravo libertar-se do seu senhor, os servos do pecado não podem libertar a si mesmo.

Um escravo não podia servir a dois senhores, de igual modo, os servos do pecado somente servem ao pecado. Não há como os servos do pecado servirem à justiça, e nem os servos da justiça servirem o pecado "E, libertados do pecado, fostes feitos servos da justiça" ( Rm 6:18 ).

Os escravos não produziam nada para si, ou seja, um escravo não tinha posses. Tudo que produziam pertenciam por direito ao seu senhor. De igual modo, tudo que um servo do pecado produz pertence por direto ao pecado.

É por isso que a bíblia diz que não há ninguém nascido de Adão que faça o bem, pois tudo que fazem pertence ao pecado.

A conduta dos escravos não influenciava a condição deles perante o seu senhor e a sociedade. Um bom escravo permanecia escravo e um mau escravo permanecia escravo. Um escravo trabalhador e um escravo preguiçoso não eram diferentes diante do seu senhor: ambos permaneciam sob o jugo do seu senhor.

Um escravo submisso e um escravo fujão permaneciam sob igual condição: ambos eram escravos.

As boas e as más ações dos homens não alteram a condição de sujeição ao pecado, pois neste caso, homens como Nicodemos, que eram exemplos de comportamento, moral, regrados, religiosos, doutores, mestre e juízes não precisariam nascer de novo.

Somente os homens desregrados, como era o caso da mulher samaritana, precisaria de auxilio divino para alcançar salvação, isto se a salvação guardasse algum tipo de relação com as ações humanas.

Por nascer 'em' Adão, o homem foi criado na condição de vaso de desonra, preparado para ira. É planta que o Pai não plantou. Os nascidos de novo pela fé em Cristo são criados vasos para honra. São plantação do Senhor e árvores de justiça.

As figuras bíblicas ilustram e detém o real significado que os escritores bíblicos expressaram utilizando diversos vocábulos para a palavra 'pecado'. Como expressar através de signos lingüísticos a sabedoria que esteve oculta? "Mas falamos a sabedoria de Deus, oculta em mistério, a qual Deus ordenou antes dos séculos para nossa glória" ( 1Co 2:7 ).


Como descobrir o significado das palavras

Havia várias palavras hebraicas e gregas utilizadas para dar nome ao pecado. Como saber qual palavra refere-se à natureza herdada de Adão e qual se refere a erros de conduta?

No verso 10, do capítulo 51, do livro de Salmos, temos o verbo 'cria'. Não há em toda a bíblia qualquer outra palavra hebraica que expresse exatamente o que expressa a palavra 'bara'.

A palavra hebraica 'bara' só tem um sujeito: Deus. Somente Deus 'bara' (cria) através da palavra falada.

Através da palavra falada Ele trouxe a existência o universo e tudo que nele há. O salmista espera em Deus, pois somente Ele, através da palavra do evangelho anunciada a Abraão pode criar um novo coração. Quando o salmista ‘expressa’ confiança em Deus pedindo um coração puro "Cria em mim...", é porque ele sabia que somente Deus pode fazer (bara) e dar, através da sua palavra, um novo coração e um novo espírito ao homem.

O salmista Davi compreendia que somente através do poder de Deus, proveniente da sua palavra, é possível ao homem livrar-se da condição de pecado herdada de Adão. Ora, somente Deus tem poder para 'perdoar' pecado.

Os fariseus entendiam que somente Deus perdoa pecado "E os escribas e os fariseus começaram a arrazoar, dizendo: Quem é este que diz blasfêmias? Quem pode perdoar pecados, senão só Deus?" ( Lc 5:21 ), e Jesus lhes disse: "Ora, para que saibais que o Filho do homem tem sobre a terra poder de perdoar pecados (disse ao paralítico), a ti te digo: Levanta-te, toma a tua cama, e vai para tua casa" (Lucas 5: 24).

Jesus, o Descendente prometido a Abraão, ao curar o paralítico através da sua palavra, demonstrou aos homens que o poder dele é idêntico ao do Pai (Deus), pois ele mandou e o paralítico andou.

Observe que, para perdoar pecado é necessário 'poder'. Não é qualquer poder, antes diz do poder criativo de Deus que se opera através da Sua palavra.

Aos que crêem Deus concede poder para que sejam feitos filhos de Deus. Ora, que poder é este? A palavra da verdade encerra o poder de Deus. Cristo é o Verbo de Deus que tira o pecado do mundo ( Jo 1:12 ).

Ao ensinar a multidão a orar, Jesus lhes disse: "E perdoa-nos as nossas dívidas, assim como nós perdoamos aos nossos devedores" ( Mt 6:12 ).

A oração modelo contém:

a) a palavra grega que foi traduzida por 'dívida' transcende o seu significado por causa do contexto em que foi empregada, pois não diz de qualquer dívida entre semelhantes, e sim de uma dívida para com Deus. Diz de uma dívida que somente Deus tem o poder de perdoar;

b) de modo semelhante, há dívidas que os homens podem perdoar uns aos outros.

Todos os homens existem por causa da misericórdia de Deus, e os bens naturais são concedidos a todos. Assim sendo, temos que não é de questões existenciais que deriva a dívida do homem para com Deus.

Quando Jesus ensinou que o homem precisa orar (pedir) a Deus pedindo perdão de suas dívidas, ele estava demonstrando que somente Deus pode perdoar a divida que o homem herdou de Adão: o pecado.

Quando se pede o perdão dos pecados a Deus é porque o homem confia na graça de Deus que há de perdoá-lo do mesmo modo que os homens perdoam os seus devedores: sem exigência alguma.

O escrito de dívida que pesa sobre o homem somente Deus pode declarar: 'tetelestai'. Somente Deus pode arcar com a dívida do homem, pois ao pecar contra Ele, Adão vendeu como escravo toda a humanidade ao pecado.

A oração modelo demonstra que, da mesma forma que os homens perdoam os seus semelhantes sem nada exigirem (se for diferente não é perdão, é acordo), o homem espera em Deus que o 'perdoe'.

O salmista fez esta oração a Deus: "Contra ti, contra ti somente pequei, e fiz o que é mal à tua vista, para que sejas justificado quando falares, e puro quando julgares. Eis que em iniqüidade fui formado, e em pecado me concebeu minha mãe" ( Sl 51:4 -5). Ele compreendia que fora vendido como escravo ao pecado pelo seu primeiro pai (Adão) e que daí por diante, tudo o que ele fez perante Deus (à tua vista) era o mal.

O salmista entendia que, somente após ser de novo criado (bara), alcançaria o perdão dos pecados e passaria a fazer o bem à vista de Deus. É este pensamento que o homem deve ter quando pede a Deus em oração que perdoe as suas dívidas (o Único que tem poder para perdoar pecados).

Isto demonstra que as palavras gregas que são traduzidas por pecado, e que comumente assim são usadas, não traduzem a idéia de pecado do qual os apóstolos fizeram referência.

Não é porque os apóstolos utilizaram a palavra 'hamartia' para falar do pecado que aproveitaram a idéia grega de pecado.

O sentido bíblico que é concedido à palavra grega 'hamartia' transcende. Ela é totalmente 'despida' dos seus valores culturais (proveniente das tragédias gregas) e passa a contemplar outra realidade: a espiritual.

O crime de Édipo contado através da tragédia de Sófocles, onde o 'herói' mata Laio, o rei de Tebas, sem saber que era o seu próprio pai por causa de um 'erro de juízo', é considerado pecado (hamartia).

A queda de Édipo é proveniente de um erro causado pela sua ignorância, pois, acertou o alvo através de suas habilidades, porém, ele 'errou o alvo' (pecou) por ignorar que o rei de Tebas era o seu próprio pai.

Diferente é a idéia bíblica de queda, pois o homem já nasce vendido como escravo ao pecado. Não importa as ações dos homens, pois elas não podem influenciar a condição proveniente do seu nascimento. Todos os homens nasceram ou nascem sob a condenação proveniente da queda de Adão.

Ora, para determinar qual o significado das palavras utilizadas pelos escritores da bíblia para designar a condição de ‘pecado’ pertinente aos homens gerados de Adão é necessário analisar o contexto no qual a palavra foi citada.

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